A Casa Paroquial
Não sei se você já observou isso, mas, as casas falam. Falam pelas presenças que abrigam e, mais ainda, pelas ausências. Se essa verdade v...
Não sei se você já observou isso, mas, as casas falam. Falam pelas
presenças que abrigam e, mais ainda, pelas ausências. Se essa verdade vale para
todas as casas, vale mais ainda, para a Casa Paroquial. Mas, o que nos diz a
Casa Paroquial?
A Casa Paroquial não é de ninguém e não tem na parede o
retrato da família. Quando muito, ostenta fotos de papas, bispos ou padres, em
sua maioria, falecidos. Ela não tem a marca do dono, não tem seu cheiro nem sua
cara. Sobrevive de resquícios. Foi erguida em mutirão, para abrigar imagens e
andores usados, quanto muito, uma vez por ano. Uma casa de morar tem que espelhar os desejos do morador. Recentemente, João Gomes, um jovem cantor nordestino disse que comprou em terreno num bairro nobre de Recife, mas, que nenhum arquiteto quis fazer uma casa de varanda conforme era o seu desejo. Todos queriam construir no mesmo padrão "caixotinho", por isso, deixou de construir. (1) Que pena! Até mesmo os profissionais do ramo não fazem uma casa que conecte a pessoa com os seus sonhos e se contentam em, apenas, reproduzir modelos, nem sempre funcionais. Se você observar, principalmente, os bairros nobres as casas são todas iguais. Nos bairros populares onde a maioria das casas são financiadas a coisa se repete, a maioria das casas são parecidas.
Nossas casas falam de nós, de nossos hábitos e manias. O seu
jardim foi plantado, antes, nos seus sonhos e o mesmo se pode dizer de sua
cozinha, construída ampla e arejada para receber a família. Se você gosta de
pescaria, academia ou algo mais, isso, de alguma forma, está em sua casa. A
Casa Paroquial, no entanto, fala da instituição. Trata-se de um abrigo funcional,
temporário e impessoal. É Funcional porque quem mora nela o faz em vista de sua
função; é temporária, porque reveza sempre de ocupante. Por isso, é também, impessoal,
pois, não carrega as marcas de ninguém. O que restar nela do último morador, se
restar algo, não vai passar de uma foto, a mais, na parede dos fundos.
A Casa Paroquial abriga mais o passado que o presente. O
passado encontra-se registrado em grossos livros que ainda recebem anotações de
um presente recortado. Ela já acolheu tantos moradores que, dificilmente, as
pessoas hão de lembrar-se, de alguns deles. Talvez, algum tenha deixado ali, por
descuido, algo de seu, no velho armário ou na “cristaleira,” tão velha quanto
esse nome. Quem sabe, uma estola manchada, uma bengala ou boné... A Casa Paroquial
não espera ninguém que a trate como sua, pois, nunca será de ninguém. Espera,
por missão, o próximo ocupante que de tão temporário, talvez, nem lhe abram as
janelas...
1- https://www.metropoles.com/colunas/fabia-oliveira/joao-gomes-diz-que-arquitetos-se-negaram-a-construir-casa-e-desabafa - Consulta em 26/12/25




Padre o Senhor tem mesmo propriedade para falar sobre o tema "Casa Paroquial" já foi residente em várias e o futuro é incerto, onde será a próxima?
ResponderExcluirO importante é o compromisso que assume em cada lar doce lar de uma casa paroquial. Acredito que cada padre que por um tempo ali habita, deixa vir a tona sua personalidade. Alguns preferem não compartilhar seu espaço, e outros são bons anfitriões, com alegria convidam para refeições, sentem que estar em boa companhia é prazeroso.
Além do perfil de cada morador, uma Casa Paroquial respira uma energia de paz, de fé e acredito que deve assim ser.
É verdade! A casa paroquial é uma parte da nossa história. Acolhe-nos por um período e nele vivemos muitos bons e desafiadores momentos. Quando estamos acostumando com o espaço, temos que fazer a bagagem e partir. Quando voltamos para visitar, já não mais reconhecemos aquele lugar. Tudo muda, inclusive nós...
ResponderExcluirAdorei o texto. Parabéns, Padre Gabriel!
ResponderExcluirMuito obrigado meu querido amigo e companheiro de caminhada padre Geraldo Gabriel. Que texto esplêndido! Falou toda a verdade. Que inspiração!. Sim, é mesmo assim. Grande abraço. Deus continue te abençoando. Boa oitava de Natal.
ResponderExcluirNunca tinha pensado nisso!!! Fiz duas mudanças de casas na minha vida e foram traumáticas! Quem mora na Casa Paroquial vive isso constantemente! Parabéns pelo texto
ResponderExcluir