Solitude
Nesse instante estou só. Visitado, apenas, pelas esparsas chuvas de fevereiro. Ainda não sai do clima de natal e março já me bate às porta...
Nesse instante estou só. Visitado, apenas, pelas esparsas
chuvas de fevereiro. Ainda não sai do clima de natal e março já me bate às
portas. Estou só e povoado de pensamentos nessa tarde de domingo, a parte rica
do meu dia. De manhã presidi duas missas em locais diferentes e conversei com
uns e outros. Agora, converso comigo mesmo, enquanto aguardo as atividades
vespertinas. Esse tempo é só meu. Posso
ler, meditar, escutar os passarinhos que piam, insistentemente, ao lado de
minha janela. Já visitei Dona Luzia e
lhe coei o seu cafezinho do dia. Para me agradar, ela sempre diz que
meu cafezinho é uma delícia. No alto de seus noventa e dois anos não perde mais
tempo com inutilidades.
Tenho um velho gato e um cachorro emprestado. De vez em
quando, brigo com eles mas, eles me dão motivos para as broncas. Cachorro e
gato mantem amizade só por conveniências. Na hora de pedir comida eles se
juntam numa manifestação coletiva, um mia e o outro late ao mesmo tempo. Valdir
é um velho gato que aprendeu as manhas da vida. Tem espírito boêmio e mesmo castrado
não perde o tempo ao lado das “moças” da sua estirpe. Sabe manipular melhor do
que ninguém e, na hora de pedir comida, mia triste, como se estivesse há um mês
sem alimento.
Tico é o cachorro de Naura que está passando uma temporada em
minha casa. Rejeita até a comida que eu mesmo aprecio. Nunca vi um cão tão
ranzinza. Vou ter que lhe dar um fortificante para abrir-lhe o apetite.
Enquanto ele dá moleza Valdir come a comida dele depois de ter comido a sua.
Daqui a pouco terei um gato latindo e um cão miando. Estou perdido com esses
dois. Ambos não tiram o olho da rua. Tico não se afasta das grades do portão e Valdir
nunca desce do muro. Tico dá notícias de tudo o que acontece na praça. Sabe
qual cadelinha está nos dias com disposição para namorar e vê com ódio cada
motociclista que acelera na frente dele. Já fez amizade com um caramelo
andarilho e fica de prosa com um cachorro preto mal encarado. Outros dias o flagrei
lambendo a nuca de uma sirigaita, sem eira e nem beira, que passou rebolante
pela rua. Assim como Valdir, Tico também é castrado. Apensar disso, não perdeu
o assanhamento.
Domingo, na parte da tarde, posso curtir minha solitude. Então, posso ver tudo isso, além de saborear
uma boa literatura. No momento leio a Divina Comédia e, assim como Dante, sou
tentado a colocar cada criatura em seu lugar. Ainda não decidi em qual degrau
do purgatório colocar meus dois companheiros, o Tico e o Valdir. Colocá-los no Paraiso
seria audácia demais! Seria humilhante para mim mesmo, que estando no purgatório, pudesse contemplá-los no andar de cima.
O meu dia é feito de partes. Há partes nobres e pobres pois,
a vida também é feita de feijão com arroz. Não gosto de passear ou ficar
sassaricando. Aprecio minha vida pública mas, sinto falta de estar só comigo
mesmo. Gosto da fervura mas, tenho muita necessidade do silêncio pois, ele me
permite gestar muita coisa como esse texto, por exemplo.
E viva a vida!
Foto: Tico e Valdir (Arquivo Pessoal)




Que lindo texto! Parabéns Padre Geraldo Gabriel.Saber amar os animais, respeitar seus direitos, é compreender o humor, de cada animal. Isto é contemplar a Natureza,viver em sintonia com a Criação,e conversar com Deus ...
ResponderExcluirEu simplesmente adorei o texto! Adorei o gatinho e principalmente o cachorrinho. Adorei o silêncio povoado de pensamentos. E adorei saber que você cuida de cachorro para os amigos. Vou levar os meus para você na minha próxima viagem. Lembrando que um dos meus é pinscher Rsrsrsrrs
ResponderExcluirPadre, que texto lindo! O senhor nos ensina que a vida é feita de simplicidade, fé, silêncio e amor. Em cada palavra sentimos seu carinho pelas pessoas, pelos pequenos detalhes e pela missão que Deus lhe confiou. Seu jeito leve, verdadeiro e cheio de sabedoria toca nossos corações. Gratidão por nos inspirar a viver com mais calma, mais fé e mais gratidão. Que Deus continue abençoando sua caminhada. 🙏❤️
ResponderExcluirPadre Geraldo, amei este texto
ResponderExcluirSempre comento com várias pessoas que o senhor e um Padre diferenciado. Sempre bem humorado, inteligente escritor de primeira classe.amo ler os seus textos em voz alta para que todos participem.prabens Padre sabe curtir a vida
Padre, esta crônica foi uma construção gostosa de ler. Apenas corações sensíveis reconhecem os sentimentos, e tem respeito pelos animais.
ResponderExcluirQuanto a preferência de estar na boa companhia de si mesmo, e tirar bom proveito desse tempo, é um privilégio!
Admiro a administração que tem do tempo porque tem muita demanda de compromissos, mas ainda dedica ao que tem prazer, que é a leitura, e para nossa sorte, gosta de compartilhar suas escritas.