A dor que virou arte
Hoje quero falar de uma música que mexe muito comigo, mas, antes de falar sobre ela, vamos contextualizar a questão. Nem sempre sabemos co...
Hoje quero falar de uma música que mexe muito comigo, mas,
antes de falar sobre ela, vamos contextualizar a questão. Nem sempre sabemos
conviver com as perdas e quando perdemos uma pessoa muito querida parece faltar
palavras para expressar tal sentimento.
Certa vez, acompanhei meu irmão caçula nos últimos instantes
de sua vida. Até hoje me dói muito lembrar dessas cenas. Após sua morte, eu perdi
o chão. Via o mesmo corpo, que, minuto antes, conversava comigo e, logo depois,
não me respondia mais. Alguma coisa havia saído de dentro daquele corpo e eu
procurava resgatar aquele sopro de vida que se esvanecia misteriosamente.
Confesso que a dor foi indescritível e só hoje consigo falar sobre ela. Infelizmente,
não consegui transformá-la em arte e, apesar de minha fé, a dor se impôs de
forma impiedosa, naquela ocasião.
Pelo visto, foi algo do tipo que aconteceu ao músico brasileiro
Alfredo Le Pera, um dos grandes compositores tornados mundialmente conhecido na
voz de Carlos Gardel. Quem nunca ouviu emocionado “El día que me quieras” ou “Mi Buenos Aires querido” sem falar de “Volver”
e “Cuesta abajo”? Boa parte dessas músicas de Le Pera também foram gravadas
por cantores brasileiros como Nelson Gonçalves, Ângela Maria, Dalva de Oliveira
e outros.
A música de Le Pera que gostaria de comentar é um tango
chamado: Seus olhos se fecharam (Sus Ojos
se Cerraron) e foi gravada em 1935. Ela fala de uma grande dor vivida por
ele quando perdeu sua namorada vitimada por uma doença respiratória grave, contra
a qual, lutou com todas as forças sem obter vitória alguma. Na música, falou de
sua impotência diante da morte, da indiferença das pessoas (y el mundo sigue andando...) e das
falsas menções de solidariedade (Todo es
mentira, mentira es el lamento).
Diante da morte da pessoa querida (a dançarina Aída Martínez)
Le Pera sentiu-se totalmente impotente. Sentia falta dos seus beijos, do
sorriso e do seu toque. Lamentava ainda o fato de não ter conseguido protegê-la
da morte diante do implacável destino. Essa parte também nos faz lembrar de
outro clássico brasileiro: a música Iracema, cantada por Adoniran Barbosa.
Diante da morte de Iracema atropelada na Avenida São João, em São Paulo, ele
diz: “Paciência, Iracema, o chofer não
teve culpa, Iracema...” Afinal, Iracema foi atropelada por ter entrado na
contramão. O poeta lamenta por não ter sequer um retrato da amada. Guardou,
apenas, suas meias e seus sapatos... Nos dois casos a morte de uma pessoa querida
foi transformada em obra de arte. Adoniran, pelo visto, leu a notícia do
atropelamento de uma mulher nas ruas de São Paulo e inspirou-se nesse fato para
fazer sua música.
Alfredo Le Pera viveu um grande amor com a bailarina argentina
Aída Martínez. Infelizmente ela contraiu uma grave enfermidade obrigando-o a
mudar-se com ela para a Suíça em busca de tratamentos alternativos. Sem obter
resultados ela acabou morrendo em seus braços e daí surgiu um dos tangos mais
tristes e lindos da história: “Seus olhos
se fecharam e o mundo continuou andando. Sua boca, que era minha, já não me
beija mais..."
A “sofrência” de Le Pera não foi inventada. Ela brotou de uma
dor imensa, a dor de perder uma pessoa querida. A música nascida daí, talvez,
tenha sido uma forma de superá-la e, ao fazer isso, imortalizou para sempre um
dos tangos mais lindos da história.
A separação de Le Pera e Aída Martinez não durou muito tempo.
Não se sabe a data exata da morte de Aída ocorrida na década de 1920. A dele,
entretanto, ocorreu num acidente aéreo em 24 de junho de 1935, juntamente com
Gardel, nas proximidades de Medellin, na Colômbia. Nesse acidente, além de Le
Pera e Gardel morreram outras 15 pessoas.
Nem todos conseguem transformar suas dores em arte e muitos, dificilmente,
conseguem amenizá-las. Ainda bem que alguns, diante das fatalidades fazem isso
e acabam deixando para a humanidade um grande legado artístico.
Imagem: Gerada por IA (Gemini)




Deus seja louvado por tamanha beleza!
ResponderExcluirA relação entre morte e arte é uma das investigações mais profundas da humanidade, funcionando como um espelho da finitude e uma tentativa de transcender o tempo. A beleza da arte da morte está na certeza de que a morte não é o fim, mas o começo de tudo...
ResponderExcluir.."hoje ela vive lá no céu
ResponderExcluirE ela vive bem juntinho de nosso senhor
De lembranças guardo somente suas meias
E seus sapatos
Iracema, eu perdi o seu retrato"..
É exatamente isso. Achamos que estamos preparados para ida de ente querido, mas na verdade nunca estamos. Como dói a saudade...
ResponderExcluirPadre que boas informações o Senhor nos deu neste texto, e ao final teve o capricho de buscar no baú de memória, uma amostra da produção musical, a partir da dor.
ResponderExcluirRealmente existem talentos que conseguem fazer uma depuração do sofrimento. Imortalizam sentimentos transformando em artes, mas não é para qualquer vivente expressar suas sofrencia em bela obra de arte, e quando acontece, deve fazer bem para seu sofrimento.
Mesmo que a dor se transforme em arte , ela não deixa de ser doída , mas ameniza um pouco porque enquanto arte , consegue -se dividir a dor. Escutar estas duas músicas , você vivência a dor do artista , sofre com ele, acredito até que consola. Mas a dor doída nunca deixa de doer. Nem por tanta arte!!!
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