O Paraiso de Dante: Onde tudo vibra na frequência do amor
Após descer ao Inferno e percorrer os patamares do Purgatório, Dante galga ao Paraíso. Essa é a terceira parte de sua obra literária, a “D...
Após descer ao Inferno e percorrer os patamares do Purgatório, Dante galga ao Paraíso. Essa é a terceira parte de sua obra literária, a “Divina Comédia”. Enquanto no Purgatório as almas foram classificadas de acordo com os pecados que deveriam ser reparados, no Paraíso acontece algo semelhante, pois, também há uma espécie de classificação das almas, embora todas estão plenas e, nenhuma, cobiça o lugar da outra. Todas podem usufruir da presença luminosa de Deus. A disposição das almas é feita conforme as virtudes vividas e as virtudes se dividem em cardeais e teologais. O primeiro grupo é formado por: justiça, temperança, prudência, fortaleza enquanto as virtudes teologais são: Fé, a esperança e a caridade. A organização do Paraiso segue um esquema antigo onde a terra ocupava o centro do universo e era circulada por esferas celestiais. Sendo assim, havia sete céus planetários, todos iluminados por um ponto único.
No Paraiso, Dante ficou impressionado como Beatriz olhava, diretamente, para o sol, coisa que ele não conseguia fazer por muito tempo. Olhar para o sol ele não podia, mas, podia olhar para Beatriz e contemplar nela uma grande luminosidade. Sem saber como ele acabou sendo elevado ao primeiro céu situado na esfera da lua. Em cada elevação ia tirando suas dúvidas e, às vezes, nem precisava perguntar pois, Beatriz podia ler os seus pensamentos.
O primeiro céu era a esfera da lua e nele habitavam as almas daqueles que, embora virtuosos, não conseguiram manter os votos sagrados. Dante conversou com Picarda, uma freira que foi forçada a abandonar os votos, e ela lhe diz:
“Atenta bem: verás que sou Picarda:/Estou nesta bendita companhia, /Venturosa na esfera, que é mais tarda (...)A sorte, ao parecer somenos tanto, / Nos coube, por ter sido descurado / O sacro voto e em parte posto a um canto...” (1)
O segundo céu é a esfera de Mercúrio e nesse local as almas eram centelhas de luz em movimento constante. Nesse céu as almas tiveram uma vida digna adquirindo fama enquanto estavam no mundo mas, não se libertaram, completamente, da vaidade. Fizeram o bem mas, com o desejo de glória...
O terceiro céu é o céu de Vênus habitado por aqueles que amaram intensamente. O brilho dessas almas era como rubis atravessados pelo sol. O texto fala de Raab, a prostituta que favoreceu os hebreus na conquista da Terra Santa. Os habitantes desse céu viveram grandes paixões mas, conseguiram se purificar e canalizar as energias para Deus.
“Devia dar-lhe um céu por palma, quando /Assinalar lhe aprouve a alta vitória, /Que na Cruz teve, as palmas entregando; / Pois que por ela começara a glória,/Que colheu Josué na Terra Santa,/Que se apagou do Papa na memória” ___ Idem. Canto XIX – O Paraiso – 121 a 126
O quarto céu é a esfera do sol, habitado por grandes sábios e teólogos como São Tomás de Aquino que apresenta a Dante doze outros espíritos reluzentes:
“Tomás de Aquino sou; me está vizinho, /À destra de Colônia o grande Alberto / A quem de aluno e irmão devo o carinho./Se dos mais todos ser desejas certo,/ Na santa c’roa atenta cuidadoso,/ A tua vista a voz siga-me perto. ___ Ibidem, Canto 97 a 102
O quinto céu é a esfera de Marte e é habitado por guerreiros da fé, pelos grandes mártires que tiveram a coragem de doar a própria vida para testemunharem a fé.
O sexto céu é a esfera de Júpiter habitado pelos defensores da justiça sendo que a verdadeira justiça é sempre um reflexo do amor. Céu reservado aos governantes justos e sábios.
O sétimo céu é a esfera de Saturno onde estão as almas dos contemplativos como São Pedro Damião, São Bento e muitos outros. Nessa parte do céu, Dante vê uma grande escada de ouro. Ela significa a elevação dessas almas místicas e suas grandes contemplações do mistério de Deus.
No oitavo céu (Estrelas fixas) e nono Céus (Primum Móbile) a jornada deixa de ser sobre indivíduos e passa a ser sobre a existência. Nesse espaço de luz Dante viu Jesus e a Virgem Maria cercada de doces melodias. A partir do Sétimo Céu, antes de prosseguir a visita Dante teve que ser examinado por São Pedro(Fé), São Tiago(Esperança) e São João(Caridade). Após esse exame encontrou-se com Adão que lhe explicou a verdadeira natureza do pecado original.
O nono Céu (Empíreo = Rosa Mística) é o Céu cristalino, o Empíreo que fica além do mundo físico e ali Deus habita envolto em luz. Ele tem um centro, à semelhança de uma grande rosa com suas pétalas. Trata-se de uma “Rosa Mística”. Nesse “local” São Bernardo tornou-se o guia do poeta e lhe mostrou que “De um lado estão os santos cristãos; do outro os hebreus, que acreditaram no Cristo que devia vir. Entre uns e outros a Virgem Maria. Embaixo de Maria, mulheres hebreias; mais embaixo as crianças mortas logo depois do batismo”.
São Bernardo pede à Virgem Maria para que Dante possa contemplar a Deus. Então ele vê um tríplice círculo, ou seja, a Santíssima Trindade. No círculo médio vê figurada a efígie humana. Dante quis conhecer o modo de união da natureza divina e humana. Então, num repentino esplender Deus lhe revela o mistério da encarnação de Cristo. Assim terminou a visão do Paraiso.
“Assim eu ante a nova visão pura / Ver anelara como a image’ humana / Ao círculo se adapta e ali perdura. / Às asas minhas fora empresa insana, / Se clareado a mente não me houvesse / Fulgor, que a posse da verdade aplana. / À fantasia aqui valor fenece; / Mas a vontade minha a ideias belas, / Qual roda, que ao motor pronta obedece, / Volvia o Amor, que move sol e estrelas”. (O Paraiso - Canto 136 a 145)
I Imagem de Karen .t por Pixabay




Padre, parabéns por traduzir tão bem estes céus planetários que Dante descrevia. A criatividade na organização do Paraíso me levou a perceber que a fé Cristã foi dominante, em destaque o nono céu, com a visão do Paraíso.
ResponderExcluirPenso que as leituras que tive já que o Senhor nos presenteou com as postagens sobre a "Divina Comedia" , poderei dizer que conheço bastante sobre este livro. Reconheço que até os dias atuais, ainda pode ser considerado uma grande obra, porque realmente é admirável.