O vestíbulo do inferno
Na obra clássica da literatura italiana, a “Divina Comédia”, de Dante Alighieri, temos uma geografia do inferno do purgatório e do céu. Ne...
Na obra clássica da literatura italiana, a “Divina Comédia”,
de Dante Alighieri, temos uma geografia do inferno do purgatório e do céu.
Nessa ordem mesmo e, por isso, o nome “Comédia.” Naquele tempo, a comédia
diferia-se da tragédia. Enquanto essa começava bem e acabava mal, na comédia
acontecia o contrário. Por isso, Dante começou sua obra, pelo lado pior, visitando o inferno
passando depois pelo purgatório e finalizando sua “excursão” no céu. O acréscimo: “Divina,”
foi dado por Bocaccio, um grande admirador de Dante e divulgador de sua obra.
Estando na metade da vida, naquele tempo, calculada em setenta
anos, Dante teve que enfrentar sozinho
uma floresta escura e sombria e, de repente, se viu perdido na mesma. Assim,
começou o seu livro numa Sexta-Feira Santa do ano de 1300. A tal selva escura, pode significar muita
coisa, pois, na Divina Comédia, quase todos os versos permitem múltiplas
interpretações. Sabemos que, quando ele escreveu esse livro, estava vivendo no
exílio e longe de Florença sua cidade natal. Além disso, enfrentava a crise da
meia idade, uma crise espiritual e política. Essa selva escura pode ser
o retrato do caos político que vivia sua região naquele tempo.
Enquanto ele tentava, desesperadamente, escalar a montanha,
numa noite escura, era impedido por três
feras: Uma onça, um leão e uma loba faminta. A onça representava a luxúria, o
leão o orgulho /soberba e a loba faminta a ganância e o desejo de poder. Esse era o
quadro psicológico de Dante encurralado entre a distração do prazer, a arrogância
do poder e a fome do ter. E quem o salvou dessa situação? Uma alma do outro
mundo. Sim. Foi isso mesmo! E a alma do outro mundo foi Virgílio que lhe
apareceu dizendo ter sido enviado por Beatriz, o amor platônico de sua vida. Além
disso, a Virgem Maria pediu a Santa Luzia que o guiasse na selva escura.
Virgílio, autor de Eneida, já havia morrido, mas, em vida foi um dos maiores
poetas da Roma Antiga. Foi ele quem descreveu a viagem de Enéias saindo de
Tróia para fundar Roma. Nessa viagem Enéias também teve que passar pelo
inferno.
Guiado por Virgílio, Dante toma coragem para realizar sua
grande Odisseia. Quem lê a Divina Comédia pode preparar o coração para fortes
emoções. Não há rotina nessa viagem. Guiado por Virgílio ele percorre todos os
degraus do Inferno, do Purgatório e do Paraíso.
Antes de adentrar ao inferno, porém, eles param numa antessala
bastante curiosa. Trata-se, de um “vestíbulo” do inferno. Dante, então,
perguntou a Virgílio quem seriam as pessoas que estavam ali e ele lhe respondeu:
“Deste mísero modo,
tornou, chora quem viveu sem jamais ter merecido nem louvor, nem censura
infamadora. De anjos mesquinhos coros é
lhes unido, que rebeldes a Deus não se mostraram, nem fiéis, por si sós havendo
sido. Desdouro aos céus, os Céus os desterraram; nem o profundo inferno os
recebera, de os ter consigo os maus se gloriaram” (Divina Comédia – Canto II)
Nesse lugar estavam as pessoas que nunca tomaram posições na
vida. Ficaram sempre em cima do muro. Por isso, foram rejeitados por Deus e
pelo diabo. Ao chegarem ao portal de pedra desse ambiente, depararam com a
seguinte frase: Deixai toda a esperança vós que entrais aqui... Após atravessarem o portão, ouviram um
turbilhão de sons, suspiros, gritos de dor e de raiva. As palavras eram
pronunciadas em muitas línguas, igualmente, desesperadas. No local, não havia
luz e o chão estava coberto de vermes que se alimentavam das lágrimas dos
condenados e do sangue que escorria de suas feridas. Os condenados eram
seguidos por nuvens de vespas e moscas que lhes picavam, incessantemente,
obrigando-os, a se moverem, algo que nunca fizeram, por vontade própria, enquanto
viviam. Havia, naquele ambiente, uma multidão de
pessoas sempre a correr atrás de uma bandeira que girava sem parar. Como nunca tomaram partido na vida lá não
eram aceitos nem pelo céu, nem pelo inferno. O destino dessas pessoas era o
esquecimento.
Conheço uma frase célebre atribuída a Benedito Valadares que
já foi governador de Minas e, em Pará de Minas, dá nome a uma das principais
avenidas da Cidade. Conta-se que quando tinha que tomar posição dizia: “Não sou a favor nem contra, muito antes,
pelo contrário”... Sendo ele, ou não, o autor da frase, certamente,
encontra-se no “vestíbulo” nesse momento. O que você acha? Por minha vez, devo dizer que nem concordo nem
discordo, e essa minha posição também me dá direito ao ingresso...
Imagem de Pippontis Giuseppe Rubens Rubino por Pixabay




Despertando vontade de ler este livro mas tenho outros que estão na fila, e o meu tempo ou está mal administrado ou realmente o tempo diminuiu. Parece que Deus achando que estamos errando muito, resolveu dimiinuir rs.
ResponderExcluirSerei repetitiva ao dizer que é muito bom ler os comentários do Senhor, como esta leitura que fez.
Termino dando destaque a esta música escolhida ao final. Que letra verdadeira e tem uma mensagem simplesmente maravilhosa.