Cicno

  Cicno foi um deus da mitologia grega, filho de Ares (Marte), o deus da guerra. Por causa disso, filho e pai não eram muito amados. A exceç...

 

Cicno foi um deus da mitologia grega, filho de Ares (Marte), o deus da guerra. Por causa disso, filho e pai não eram muito amados. A exceção ficou por conta de Afrodite (Vênus) a deusa do amor, que traia Vulcano (Hefesto), o seu marido, com o deus da guerra. A relação de amor e guerra, parece ser bem antiga. Logo ela, a deusa do amor, não conseguiu livrar-se da atração pelo deus da guerra! Por ser muito encrenqueiro e briguento, Marte nunca recebia homenagem. Por isso, seu filho Cicno resolveu quebrar essa regra e homenageá-lo com um templo. O detalhe curioso foi a matéria prima usada para edificar esse templo: ossos humanos! Isso mesmo, Cicno começou a construir um templo de ossos e crânios humanos.

Para erguer o templo Cicno começou a selecionar suas vítimas pelo tamanho pois, precisava de ossos fortes e resistentes. Amarrava-os em feixes e juntava os crânios para fazer o telhado. Isso criou um terror tão grande que ele passou a ser mais temido que a peste. Certo dia, ao ver Hércules passando por ali, Cicno fez de tudo pra matá-lo, atraído pelo tamanho dos seus ossos.  Mas, nessa tentativa se deu mal e acabou sendo morto por Hércules. Seu pai, ao ver o fracasso do filho, teve pena dele e assumiu para si aquele empreendimento macabro. Aí a coisa ficou feia, pois juntou uma verdadeira montanha de ossos das vítimas que assassinou para obter matéria-prima. No dia da fatídica inauguração do templo, o Rio Amaro esteve presente e, atendendo a um pedido dos outros deuses, destruiu tudo aquilo com suas ondas. Assim, ele varreu da história aquele templo erguido às custas das mortes provocadas.

Esse mito, às vezes, deixa de ser apenas uma história do passado e ganha vida entre nós. Nunca podemos nos esquecer das retroescavadeiras amontoando centenas de corpos vitimados pela Covid o Cemitério Parque Tarumã, em Manaus em 2021. O que presenciamos, ao vivo, pela televisão, foi um ritual macabro, que ceifou centenas de vidas pela falta de vacina e de responsabilidade.

O deus da morte nunca morreu na verdade, e de vez em quando ele reaparece na história querendo retomar a construção de seu templo. Somente na Faixa de Gaza ele colheu mais de setenta mil vidas em razão do conflito com Israel iniciado em 2023. Dentre essas vítimas grande parte eram mulheres e crianças. O número dos feridos nesse conflito é quase incontável. Nesse conflito ele obteve ossos de diversos tamanhos e formatos.

Em escala reduzida esse mito também pode ser compreendido em nossas próprias famílias. Você certamente conhece o comportamento de alguns pais que endossam as atitudes dos filhos mesmo que elas custem a vida de terceiros. São aqueles que não se importam que seus filhos bebam e peguem no volante ou que entregam a chave do carro para um filho menor de idade e sem habilitação...

O deus da guerra se alimenta das desgraças humanas e, nesse ofício, ele sempre arranja parceiros, enquanto fica com os ossos, seus parceiros se beneficiam com terras, petróleo e até mesmo com especulação imobiliária. Alguém já quis transformar Gaza destruída em resort para turistas ricos que se beneficiariam do luxo pisando sobre esqueletos.

O Brasil, e a América como um todo, alimentaram uma engrenagem de violência e morte ao testemunharem o sacrifício de milhares de escravizados traficados da África para seus territórios. Mas a fome do deus Marte ainda continua. Nada é capaz de saciar sua ganância pelos ossos humanos. E o que é pior: ele sempre arranja muitos colaboradores, em todos os tempos. Termino essa reflexão com um questionamento: a que Deus você serve, ao Deus da Vida ou ao Deus da morte?

Imagem: Gerada por IA (Gemini)


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  1. Padre, chocante esta construção do texto! iniciou na mitologia grega, e fez um paralelo bem apropriado das ações humanas ou melhor desumanas.
    A morte como ingrediende para manter poder, ambição, vaidade, sem nenhum temor a Deus.
    Infelizmente temos assistido o nivel de mente e coração muito ruim de tantas pessoas, mesmo a de nosso convívio. As vezes fico sem esperança, melhor rezar pedindo sabedoria. Será que ainda podemos acreditar nessa humanidade?
    A letra da música é um ritmo alegre mas nostálgico, deixando uma boa mensagem.

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