A ilha dos lotófagos
Às vezes, imagino o que me aconteceria se eu viesse a perder a memória. Só quem teve alguém com Alzheimer, em casa, sabe o que isso signif...
Às vezes, imagino o que me aconteceria se eu viesse a perder a memória. Só quem teve alguém com Alzheimer, em casa, sabe o que isso significa. Vivi isso com meu pai e não desejo para ninguém. Na época, tinha muita saudade dele mesmo estando em sua presença. Algo dele havia sido tirado. Ele não me conhecia mais e me tratava como a um estranho. Falava de sua mãe, falecida há cinquenta anos e pedia, insistentemente, para voltar pra casa, embora não soubesse mais onde ficava sua casa. Nenhuma conversa com ele seguia um discurso lógico e o que dizia, nem sempre, entendíamos. Não consigo imaginar o que significa para uma pessoa ficar, totalmente, sem rumo, sem direção e não conhecer mais ninguém. A gente que vai e volta para o trabalho, sem misturar os nomes das ruas e dos lugares, não tem ideia do que significa essa confusão geral na cabeça de alguém. Podemos ser comparados a um time de futebol, onde cada jogador sabe a qual grupo pertence, qual gol que deve ser protegido ou atacado. Em outras palavras, precisamos muito do senso de direção. Imagine um jogador em campo que perdesse a memória. Ele não saberia mais em que direção deveria chutar a bola nem mesmo saberia o motivo de estar ali.
Na Odisseia, um livro clássico
atribuído a Homero, temos uma situação que pode ilustrar nosso tema. Voltando
para casa, após derrotar os troianos, Odisseu enfrentou a fúria dos deuses. Ele
foi o inventor do famoso cavalo de madeira que transportou os soldados gregos
para o território inimigo. Mas, após a vitória, encheu-se de vaidade e desafiou
os deuses dizendo que não precisava mais deles. Por causa desse comportamento perdeu-se
na vastidão do oceano, “território” de Posseidon, e vagou dez anos pelos mares.
Em sua viagem, uma verdadeira odisseia, acabou parando em muitas ilhas e
enfrentando dificuldades em quase todas. Uma das ilhas que aportou foi a Ilha
dos Lotófagos. Lótus quer dizer flor, e fagos, comer. Então, os lotófagos
comiam flores. Lembre-se que a narrativa é mitológica e não real:
Depois, uma tempestade nos lançou longe, e chegamos à terra dos
comedores de lótus, um povo que se alimenta de uma planta doce e esquecedora.
Meus homens que provaram o lótus esqueceram do lar e desejaram ficar para
sempre. Arrastei-os de volta à força e seguimos viagem(1)
Os guerreiros que acompanhavam
Odisseu, comeram a tal flor e ficaram apáticos e indiferentes. Completamente "drogados" esqueceram-se da
viagem de volta e embarcaram-se numa viagem imaginária. Foi preciso que Odisseu
os arrastassem, à força, para a realidade retomando com eles o caminho de casa.
Ao que parece, esse problema de fuga do real é bem mais antigo do que parece.
Quantos, ainda hoje, dizem que bebem para esquecer...
Sabemos o quanto a vida nos é
difícil. Às vezes, temos que matar um leão por dia para viver. Alguns, não suportam
esse peso e acabam buscando válvulas de escape. Os lotófagos ainda existem e
continuam procurando rotas de fuga. Por mais dura que seja a existência ela
deve ser encarada de frente. Já nos bastam as enfermidades do tipo Alzheimer que
nos tiram do real e nos colocam num mundo imaginário. Nesse caso, não há muito
o que fazer, pois trata-se, de uma enfermidade e ninguém está livre de doenças.
A vida de cada um é uma
verdadeira “odisseia”. A cada momento somos desafiados por forças adversas e
novos conflitos. Afinal, “viver é perigoso”. Nem sempre acertamos o alvo e
podemos ser tragados pelos abismos. Mas, “navegar é preciso”! Tomemos, então,
os nossos remos e evitemos nos entorpecer de fantasias que nos encantam e
prometem encurtar os caminhos! Viver é perigoso, mas, convenhamos, é muito
emocionante!
1-https://www.amazon.com.br/gp/product/B0F98GNJMT/ref=ku_mi_rw_edp_ku -
Consulta em 2026
Imagem de Dimitris Vetsikas por Pixabay




PADRE, realmente é triste conviver com o pessoas que amamos, e estão sem a lucidez da memória, desconectados da realidade. Se vivem assim mas podem estar juntos de seus familiares já é um privilégio.
ResponderExcluirLembro de uma apresentação recente do grupo que participo de teatro, quando estivemos no asilo, com certeza de padrão alto, mas morando, em local nada mais pessoal, tudo em coletivo perdendo a identidade. O esquecimento os ajudam a suportar melhor este caminhar para o fim.
Penso que todos nós queremos é viver enquanto pudermos ser úteis, mas ai é que está o X da questão,
o nosso merecimento.