Vá com Deus Sô Vivico!
Com muita tristeza, recebi hoje, 05/02, a notícia do falecimento de Ari Altivo, o Sô Vivico. Ainda na semana passada recebi a visita dele na...
Com muita tristeza, recebi hoje, 05/02, a notícia do falecimento de Ari Altivo, o Sô Vivico. Ainda na semana passada recebi a visita dele na Rádio Santa Cruz. Nesse dia tomamos um cafezinho juntos e conversarmos mais de uma hora. Sô Vivico era bom de prosa e eu gostava muito de ouvi-lo. Contou-me como foi o namoro que teve com a primeira esposa. Na ocasião, ela morava em Angicos e ele nos Penhas, duas comunidades de Pará de Minas, distantes uma da outra. Na primeira vez que recebeu a visita, daquela que seria sua esposa, deu uma rapadura de presente ao pai dela. Ao ver essa delicadeza do moço ela pediu uma rapadura também para si. Seria uma forma de lembrar-se da "gostosura" daquele encontro pois, pela longa estrada ia caminhando e saboreando a rapadura... Aquele namoro começou quando ele procurou comprar um carro de boi do pai da moça... A história foi longe. E como eu gostava de ouvi-lo e aprender com sua sabedoria!
Em novembro de 2021, escrevi um texto Sobre Sô Vivico. Vou transcrevê-lo aqui. Acho que você irá gostar de relembrar. Então, vamos lá:
Sr. Vivico
Em meu livro “Varal”, publicado em 2012, já falei sobre o personagem da crônica de hoje. O titulo da crônica publicada era: “O Peregrino”. Naquela época, contei um fato da vida de Sr. Ari Altivo, o Sr. Vivico. Sr Vivico estava com 68 anos, naquela época, e ainda ia, à pé, de Pará de Minas a Conceição do Pará em peregrinação a cada 08 de dezembro. Na época, narrou-me, que ia tocando sua sanfona pela estrada a fora. Fazia isso como forma de alegrar outros peregrinos e aliviar o peso de suas caminhadas. O detalhe é que ele gastava quase a noite toda para fazer esse percurso. Sr. Vivico ainda está vivo, graças a Deus. Agora, está com sua segunda esposa, Dona Zulmira Martins.
Recentemente, encontrei-me com ele e pude saborear mais de suas histórias. Falou-me sobre como agiu para aliviar o sofrimento da primeira esposa que ficou doente ao final da vida. Mais uma vez, sua sanfoninha entrou em cena. Com ar de saudade ele falou-me de como fazia:
Eu passei muito aperto com a doença dela. Às vezes, ficava sozinho e, além de meu trabalho no campo, tinha que cuidar dela e da casa. Minha esposa percebia a situação e costumava reclamar. Dizia que estava sendo muito pesada para mim e que não valia a pena continuar a viver. Eu nunca reclamei de nada e sempre procurei disfarçar o meu cansaço. Então, para conseguir esse objetivo, depois que a ajudava no banho, ao final do dia, pegava minha sanfoninha e tocava as músicas que ela mais gostava bem ao lado de sua cama. Só depois que ela se alegrava um pouco eu cuidava do meu banho e de minha alimentação... Cuidei com amor de minha esposa até o último dia de sua vida. Sempre procurei ser amigo e companheiro dela.
Após ouvir aquela narração permaneci em silêncio imaginando a beleza do quadro: Um marido exausto e, ainda capaz de esquecer o próprio cansaço para alegrar a esposa doente. Com a música procurava espantar os fantasmas da vida. Sr. Vivico não me falou de amor. Não precisava. Amor, já disse Adélia Prado, em um de seus poemas: É palavra de luxo! Manoel de Barros, poeta do Pantanal, também disse que o amor tornou-se uma palavra sem nada dentro, ultimamente... Não são apenas, com palavras, mas com atitudes que demonstramos o nosso amor.
O tempo passa para todo mundo e para o Sr. Vivico não é diferente. Ficou sozinho com a morte de sua esposa. Nos primeiros dias não teve cabeça para nada. Depois começou a reorganizar a vida. Encontrou uma nova companheira. Enfrentou algumas dificuldades para firmar essa nova relação. Dona Zulmira estava cheia de dúvidas. Tinha medo de deixar sua casa para recomeçar a vida com alguém. Sr. Vivico viu aquilo como uma negativa. Entristeceu. Esperava tanto a possibilidade de ser feliz com alguém novamente! Um dia, quando menos esperava, Dona Zulmira foi até ele e comunicou-lhe sua decisão positiva. Foi como se o sol brilhasse novamente.
Sr. Vivico, não estava feliz sozinho. Deus foi bom para ele e deu-lhe uma nova companheira. Agora, voltou a tocar sua sanfona. Ela serve para alegrar e, sobretudo, para exorcizar os fantasmas da vida. Dona Zulmira fica embriagada com os acordes da sanfona.
Embalados pela musicalidade do instrumento, eles seguem a vida como dois pombinhos!
-------------------------------------------------------------------------
Na vida tudo passa. Dona Zulmira faleceu em 2023 e, pela segunda vez, Sr. Vivico enviuvou-se. Apesar dos arrancos da vida, prosseguiu com sua missão: Levantar cedo, ir para o trabalho e só retornar ao final do dia. Foi um homem de Deus! Gostava de participar das Festas do Congado e da Folia de Reis. Às vezes, levantava-se de madrugada para ir à missa que celebro no Colégio das irmãs, antes das seis. Nas festas do Congado sempre comparecia com sua sanfona e com seu jeito simples, cativava todo mundo.
Após sofrer um acidente, agora ele parte ao encontro do Pai e nos deixa com um grande vazio e cheio de saudades. Vá com Deus Sô Vivico! Vá tocar sua sanfoninha junto com os anjos e ao lado das pessoas que o senhor mais amou.
Termino esse texto com lágrimas nos olhos... Todo Câmbia...
Foto: Arquivo pessoal.



Muito Obrigada pelo carinho e pelas palavras.
ResponderExcluirO senhor vai fazer muita falta Vovô! Te amo muito e o senhor sempre estará nas minhas lembranças e no meu coração! 🖤🖤🖤
ResponderExcluirPadre Geraldo que história maravilhosa.
ResponderExcluirTenho certeza que ele está junto de Deus.
Padre Geraldo, que lindo texto que o senhor escreveu.Fiquei imensamente emocionada, Tenho certeza que o sr vivido está junto de Deus .
ResponderExcluirFiquei assustada com a notícia! Semana passada estive com ele na rádio! Ele falou do sonho de comprar uma sanfona nova
ResponderExcluirQue palavras lindas Padre Geraldo! Até dos encheram meus olhos de lágrimas. Que Deus o receba em seu colo eterno! Foi reencontrar seus amores.
ResponderExcluirEle partiu com a certeza de que cumpriu sua missão. Levou alegria onde a tristeza e a dor, eram presença constante. Viveu o real mandamento de Deus. Amou e zelou, nas grandes dificuldades, do bem maior que tinha. A vida de sua primeira esposa.
ResponderExcluirQue linda história de vida do Sr Vivico ,Deus dê a ele o descanso eterno
ResponderExcluirMeus sentimentos, que a alma dele descanse em paz, ele sempre será lembrado pelos os que o amavam, respeitavam e o admiravam.
ResponderExcluirSô Vivico eternizado nas palavras, parabéns pelo texto.
ResponderExcluirQue história emocionante, q li o texto com lágrimas nos olhos tbm....
ResponderExcluirEle foi muito dedicado, q Deus o receba, foi um grande homem 👏👏👏
Meus sentimentos e orações a toda família e amigos. Fraternalmente, Irmã Marly
ResponderExcluirQue história linda, que pessoa maravilhosa, não o conheci , mas diante deste relato senti um aperto no coração porque deve ter sido muito bom ter convivido com uma pessoa como ele. Deus o receba e conforte a família e amigos. Para quem convivia com ele vai sentir muita saudade, mas ele está junto de Deus. Padre, meus sentimentos!
ResponderExcluirBom dia! Linda história de vida, Deus o acolha na glória eterna. Grande homenagem Padre Geraldo Gabriel, meus sentimentos ao senhor e aos familiares.
ResponderExcluirExcelente narrativa sobre o Senhor Vivico. Pude o conhecer, sempre que podia acompanhava o filho “Fernando do seu Vivico” nas missas da Barraca da Santa, e sempre acompanhado de sua sanfona. Ajudava sempre nos cantos da missa com os acordes da sanfona.
ResponderExcluirPessoa simples, mas de grande sabedoria, alegria que carregava e distribuía por onde passava, e histórias. Fará uma falta para todos que o conhecia, mas agora será um privilégio para ele tocar a sanfona na casa do Pai.
Vá para companhia de Deus seu Vivico, não é uma despedida, mas um até breve.
Excelente narrativa para lembrar do seu Vivico. Sempre que podia acompanhava o filho, “Fernando do seu Vivico” nas missas da Barraca da Santa e sempre acompanhado de sua inseparável sanfona. Aproveitava e acompanhava com seus acordes os cantos da missa.
ResponderExcluirDeixará muitas saudades para todos, pessoa simples, mas de grande sabedoria, alegria que espalhava por onde passava, e histórias.
Agora terá o privilégio de tocar para na caso do Pai.
Seu Vivico, obrigado e um até breve!
Ele foi um senhor extremamente importante na minha vida, e na vida da minha família. Sempre foi alegre, gente boa e fazia de tudo um pouco por todos nós. Te amo muito Vovô! O senhor vai fazer muita falta e sempre estará no meu coração e memórias! 🖤🖤🖤
ResponderExcluirMeus sentimentos... Realmente é difícil "perder" um amigo.
ResponderExcluirPadre inicio o comentário dizendo que para o Senhor foi realmente uma perda que doeu muito, principalmente por ter sido uma morte sem nenhum preparo, como ter ficado doente e gradativamente preparando sua partida. Ele foi com certeza um companheiro naquilo que gosta, uma sanfona e participante do congado. Bom ter tido momentos agradáveis de bate papo, e apreciado ouvi-lo lembrar fatos marcantes de sua vida, como os seus amores, hoje registrado em um belo texto em sua homenagem. Não tenho dúvida que as lágrimas aconteceram.
ResponderExcluirQuanto ao Sr. Vivico já está no colo do pai, e que a familia receba o consolo porque deixou lembranças boas , afinal a vida é feita de escolhas e Ele sempre fez boas escolhas em vida.