Lobisomem
Faz algum tempo quero escrever sobre o lobisomem, um ser imaginário, metade homem, metade lobo o que justifica o seu nome. O lobisomem ain...
Faz algum tempo quero escrever sobre o lobisomem, um ser
imaginário, metade homem, metade lobo o que justifica o seu nome. O lobisomem
ainda assusta muita gente em diversas regiões do Brasil e, mais recentemente,
encontramos muitos memes sobre ele nas redes sociais. Já houve quem acreditasse
que, numa realidade urbana, o dito cujo não teria mais espaço e que isso era
coisa de quem morava nos grotões do Brasil. Enganaram! Ele voltou a atacar,
principalmente, nas redes sociais.
Na roça ele foi sempre uma presença de consideração, principalmente,
no tempo da quaresma. Eu mesmo cresci ouvindo histórias desse lobo maldito que
gostava de devorar crianças pagãs, além de goiabas maduras e estrume de
galinhas para não dizer outra palavra mais feia. Nunca entendi bem, o seu gosto
por esse cardápio, mas, o certo é que a gente morria de medo. No início da quaresma minha mãe desejava
cortar todas as quaresmeiras. Mas, poupava as goiabeiras cujos frutos serviam
de alimento às galinhas. As flores roxas das quaresmeiras contrastavam-se com o
verde das folhas e davam um lindo colorido à paisagem. Apesar disso, a presença
da quaresmeira fazia a gente se lembrar do tempo quaresmal e, consequentemente,
do bicho.
A história do lobisomem vem de longa data. Pode ser
encontrada na Grécia antiga, em Roma e em diversos países do mundo, inclusive
no Brasil. A tradição grega atribui a Licaon, rei da Arcádia, um terrível
castigo de Zeus. Licaon, foi transformado em lobo por Zeus, quando este ofereceu-lhe,
como comida, o seu próprio filho sacrificado. Nem mesmo a divindade pagã
aceitou tamanha crueldade. Antes de se transformar em lobo, entretanto, Licaon
já carregava essa maldição no próprio nome: Licus, Luko = lobo. Acreditava-se
que, se Licaon, tornado lobo, se abstivesse de comer carne durante dez anos, retomaria
sua forma humana.
Na Roma antiga a imagem do lobisomem ligava-se à festa das
lupercais, festa dos lobos, que acontecia em fevereiro com objetivo de
purificação pessoal e coletiva. Talvez, tenha vindo de lá as origens de nosso
carnaval. Fevereiro vem de februare e quer dizer purificar. Acreditava-se,
ainda, que Rômulo e Remo havia sido criados por Acca Laurentia, uma loba. Vale
lembrar que, naquele tempo, as mulheres “da vida” eram apelidadas de lobas. A
representação de Acca Laurentia como o animal que nomeava sua profissão, popularizou
em Roma a imagem do lobo. Em certos momentos da história Roma parece ter
colocado em prática, com intensidade, a profissão herdada da mãe...
A crença que um castigo divino pode transformar um homem em
lobo vem de longe. São Patrício, na Inglaterra, transformou em lobo o rei de
Gales, Vereticus e São Natálio, na Irlanda, teria transformado um homem em lobo
por sete anos. Na Rússia, acreditavam-se que, as alcateias famintas que uivavam
nas noites geladas, eram as almas penadas que lamentavam os crimes cometidos em
vida (CF: Luís da Câmara Cascudo, em Geografia dos Mitos Brasileiros).
No Brasil, a crença do homem que se transforma em lobo ainda
é presente, principalmente, nas regiões mais afastadas do mapa. No sul, o
lobisomem representa alguém castigado por Deus, no norte e nordeste é visto
como consequência de alguma doença. Conforme a região alguém ainda pode se
transformar em lobisomem por causa de relações incestuosas, ou por ser o sétimo
filho de uma família cujos filhos sejam todos homens, por excomunhão paterna ou
por consequência do amarelão (ancylostomiase).
Se apelarmos para o lado moral constatamos que, de alguma
forma, todos partilhamos da sorte dos lobisomens. Existe em nós uma estranha
mistura de luzes e sombras. O lobisomem aparece quando as sombras se projetam
com maior intensidade em nossas ações. Talvez, por excesso de lobisomens, existem,
no Brasil tantas criaturas assombradas. Como não temer ao crime, à droga e
outras formas de violência que nos assustam?
A competição desenfreada, gerada pelo capitalismo também desperta
o lobo existente em cada um de nós e fazem lembrar do que disse o filósofo
Hobbes: “O homem é o lobo de outro homem”.
Pela falta de acesso à saúde, ou mesmo pela fome, algumas pessoas estão
mais próximas do animal que do ser humano. Atualmente, os Pets, costumam ser
mais valorizados do que o próprio homem.
Infelizmente ainda não nos libertamos da aparência do lobo. Alguns brasileiros sobrevivem em situações tão desumanos que assustam qualquer um. Seja como for, é preciso que a humanidade procure se libertar de todos os lobisomens. Mas, para que isso aconteça é necessário que cada um faça a sua parte. Caso contrário, eles continuarão nos assustando não, apenas, na quaresma, mas, o ano todo.
Imagem de Seth Metoyer por Pixabay



