Memória afetiva

Anos atrás, meu avô apontou para um coqueiro ainda frágil, magro… quase tímido diante do mundo, e disse com a serenidade de quem conversa co...


Anos atrás,

meu avô apontou para um coqueiro ainda frágil,

magro… quase tímido diante do mundo,

e disse com a serenidade de quem conversa com o tempo:

- Quando ele tiver dois… três metros…

nós vamos comer o palmito dele.

Eu não sabia…

mas ali não nascia apenas uma árvore.

Nascia uma promessa de encontro.

Os anos passaram silenciosos,

como passos leves dentro da casa da memória...


Hoje, o coqueiro está alto…

cinco… talvez, seis metros de vida erguida,

folhas largas que dançam com o vento,

como se acenassem para quem já partiu.

O palmito ficou pronto.

Mas a mesa… ficou vazia.

Meu avô já não está aqui

para medir o tronco com os olhos,

nem para afiar o facão devagar,

como quem prepara um ritual antigo.


Hoje percebo…

nunca foi sobre o palmito.

Era sobre o barulho da cadeira sendo puxada,

sobre o copo simples pousado na mesa,

sobre o olhar tranquilo de quem tinha tempo,

sobre o silêncio confortável de duas gerações

respirando o mesmo instante.

Era sobre ouvir histórias repetidas

como se fossem novas,

sobre rir de coisas pequenas,

sobre não saber…

que aquele momento simples

era um pedaço da eternidade disfarçado de rotina.


A vida, às vezes, nos engana com urgências.

Promete que haverá depois.

Sussurra que ainda dá tempo.

E quando percebemos…

o palmito cresceu,

o tempo passou,

e o lugar à mesa virou saudade.

Hoje entendo… tarde demais…

que o facão não cortaria apenas o tronco -

abriria também o ventre da memória,

de onde escorre essa ausência que pesa.

Quantos encontros adiamos

acreditando que o amor espera?

Quantas vezes dissemos “depois”

como se o depois fosse um direito garantido?

O coqueiro continua lá…

alto… vivo… inteiro!

como se guardasse dentro dele

o almoço que nunca aconteceu.

E toda vez que o vento toca suas folhas,

parece que alguém chama pelo meu nome

de um tempo que não volta.

Hoje, não é fome o que sinto.

É uma saudade funda,

dessas que rasgam devagar,

dessas que fazem a alma sangrar silêncio.

Porque agora eu sei…

o palmito nunca foi o alimento.

O alimento… era estar junto.

E há mesas que a gente só entende

quando já não há mais ninguém sentado nelas.


A vida, às vezes, arma suas peças

como quem distrai o olhar do essencial.

Pensamos que era sobre o ato…

mas era sobre o encontro.

Quantos palmitos deixamos de comer,

enquanto adiamos sentar à mesa?

Quantas promessas guardamos

como se o tempo também esperasse crescer

na altura exata da nossa saudade?


 Texto de Lucas Bessa

 Imagem de Gerd Altmann por Pixabay

 

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