O altar da manhã

  Há jardins que só florescem quando aceitam o espanto das possibilidades.  A dália rubra não tenta ser amarela. A branca  não se ajoelha ao...

 


Há jardins que só florescem

quando aceitam o espanto das possibilidades. 

A dália rubra

não tenta ser amarela.

A branca 

não se ajoelha ao excesso da vermelha.

E a pequena flor laranja

não pede desculpas

por incendiar o centro do vaso.

Cada uma traz

sua própria febre,

seu silêncio,

sua maneira de conversar com a luz.

Assim também os homens.

Há os que pensam como rios,

há os que pensam como pedras.

Uns chegam suaves,

outros carregam tempestades nos olhos.

Há quem viva de certezas

e quem faça morada na dúvida.

E nenhum é inteiro sozinho.

Porque Deus

ou a vida

não escreveu o mundo em monocromia.

Preferiu misturar tintas.

Fez povos, vozes, credos, peles,

desejos, ideias contraditórias,

para que o universo não morresse de repetição.

A beleza está na flor isolada e também no arranjo.

No improvável convívio

entre o amarelo escandaloso

e o vinho profundo.

Entre a folha discreta

e a pétala que grita.

Tudo tão diferente

e, ainda assim,

milagrosamente harmônico.

Quem teme a diversidade

talvez nunca tenha entendido os jardins... Os verdadeiros jardins.

Pois até a natureza sabe:

a monotonia é pobre.

Rico é o que se mistura,

o que dialoga,

o que aprende a dividir espaço

sem perder a própria raíz.

E talvez amadurecer seja isso:

olhar o outro

sem querer podá-lo.

Compreender que o mundo

não precisa de cópias,

mas de completudes.

Como esse vaso sob o altar da manhã:

múltiplo e possível. 

E, exatamente por isso,

belo.


  Texto: Ana Cláudia SSaldanha

   Foto: Pe. Gabriel - Arranjo de flores organizado por Aparecida, da Comunidade de Cachoeirinha. São     José da Varginha, MG

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