O poeta, o vinho, a lua e o lago
De minha janela, contemplo a lua com sua beleza escandalosa. Sinto-me atraído por ela, embora, não seja poeta. Quase não bebo vinho e não ...
De minha janela, contemplo a lua com sua beleza escandalosa.
Sinto-me atraído por ela, embora, não seja poeta. Quase não bebo vinho e não frequento
rios e lagos. Mas, posso imaginar a beleza do quadro de quem pode contemplar a
lua em noite escura estando dentro de um barco sobre águas tranquilas. Ao que
parece, essa era a especialidade de Li Po, um poeta chinês do ano 700. Em diversos
poemas que escreveu, fala da lua, do lago e do vinho. Diferente de nós, ele não
queria ir à lua para explorar “terras raras”. A ele bastava contemplá-la
refletida no fundo de sua taça de vinho.
Tudo o que desejo é que, quando se
canta e se bebe, o luar se reflita sempre no fundo da taça de ouro.
Imaginei-me, muitas vezes, ao lado dele, assentado em seu
barco, silenciosamente contemplando sua admiração pelo que via, como alguém que
acaba de nascer para a vida. É lamentável que tenhamos afastado tanto da
natureza! A lua, hoje, tornou-se, objeto de cobiça e ninguém mais suporta o
esgoto crescente despejado nos lagos e riachos. A lua perdeu o seu brilho e o
céu parece fechado. Onde estão os poetas, os místicos e os sonhadores?
Em um de seus poemas Li Po, rema seu barco com cuidado para
que o barulho dos remos não interrompesse o hino de amor que os nenúfares
(lírios d’água) entoavam ao luar:
O lago Nah-hu embala a lua de outono
Que se reflete na água verde.
O ruído dos meus remos interrompeu o
hino de amor
Que os nenúfares cantavam à lua...
A lua aparecia ao poeta no jardim, em meio aos pessegueiros
floridos e sobre as ruínas dos palácios. Embriagado de vinho e beleza o poeta
desfalecia e cantava:
Já que a vida é ilusória como um
sonho, por que nos atormentamos? Prefiro beber até cair. Foi o que ontem fiz.
Ao acordar olhei ao redor. Um pássaro gorjeava entre as flores. Roguei-lhe que
me informasse sobre a estação do ano e ele me respondeu que estávamos na época
em que a primavera faz cantarem os pássaros.
Como eu já ia enternecendo, recomecei
a beber, cantei até a lua chegar e de novo tornei a perder a noção das
coisas...
Li Po nasceu no ano 701 e morreu em 762. Dizem que morreu afogado
num rio tentando abraçar a imagem da lua refletida nas águas. Talvez, seja
lenda, talvez, seja verdade. E poderia haver morte mais linda ao poeta?
Imagem de Lisa Yount por Pixabay



