A moîra do herói é o nóstos
Nos braços de uma deusa e solto no paraíso, mas, querendo voltar pra casa. Como explicar isso? O moço chamado Odisseu acabou parando ali, ...
Nos braços de uma deusa e solto no paraíso, mas, querendo
voltar pra casa. Como explicar isso? O moço chamado Odisseu acabou parando ali,
sem saber mesmo onde o seu barco se quebrara. A Ilha, Ogígia, apesar de remota,
era um verdadeiro paraíso! Veja um pouco de sua descrição:
“Ao redor da gruta há uma floresta exuberante, com amieiros,
choupos e ciprestes perfumados. Diversas aves faziam ninhos nas árvores —
corujas, falcões e aves marinhas. Uma videira crescia em volta da entrada da
caverna, carregada de cachos de uva. Próximo da gruta, havia quatro fontes de
água cristalinas que brotavam lado a lado, mas seguiam em direções diferentes.
Em volta, estendiam-se prados macios, cobertos de aipo e violetas, cheios de
vida. O lugar era tão belo que até um deus imortal se encantaria ao vê-lo” (1)
Calipso, a deusa de belas tranças, apaixonou-se pelo mortal
Odisseu e quis retê-lo junto a si. Em troca lhe daria o paraíso, a eterna
juventude e, consequentemente, a imortalidade. Por muito menos, alguns homens
não a esperariam fechar a boca. Mas, a moîra do herói é o nóstos. Explico: O
destino do herói e regressar ao seu lar, aos braços de sua esposa, para cuidar
de sua casa e de seu reino invadido por intrusos. Essa missão era tão sagrada
que para realizá-la ele desafiou céus e terra, ou melhor, a força dos mares
representada por Posseidon, divindade marinha.
O nome Calipso quer dizer esconder, encobrir, ocultar. É o
contrário de apocalipse que quer dizer revelar, mostrar-se. Calipso, a deusa
dos amores não correspondidos, procura esconder Odisseu e desviá-lo de sua
rota, sua moîra. Em sua ilha escondida passa o tempo tecendo com fios de ouro.
Essa imagem é muito sugestiva. Penélope, esposa de Odisseu também tecia para
enganar os seus pretendentes. Tecia durante o dia e desfazia o tecido durante
as noites, na expectativa de retardar um novo casamento indesejado. Odisseu, no
entanto, não cedeu aos desejos da deusa, "preferiu o sofrimento com propósito ao
prazer sem identidade". Sucumbindo aos desejos de Calipso, ele teria
existência infinita, porém, invisível como se estivesse morto. Aqui percebemos
uma relação entre o desejo e a morte, ou seja entre eros e thanatos. Abraçar à ninfa seria abraçar o
esquecimento, coisa impensável ao herói cujo destino é a glória (kléos); glória
após a guerra em Tróia e após a reconquista de seu lar e de sua pátria. Ao lado
de Calípso beberia a água do Letes, o rio do esquecimento, cujas águas deslizam
no Hades, o mundo dos mortos. Nesse caso, seria preferível ter sido morto em Tróia
onde teria, pelo menos uma sepultura. Telêmaco confessa isso, ao reclamar de
seu sumiço:
Menos penoso seria saber que, de fato, morrera, se sucumbisse
entre os seus companheiros nos campos de Tróia, ou entre os braços de amigos,
depois de acabada a campanha. Túmulo os povos Aqueus com certeza haveriam fazer-lhe,
e, no porvir, a seu filho deixara renome perene. Mas, desse modo, as Harpias
sem fama nenhuma o arrastaram. Dele já não há notícia, sumiu, só me havendo
deixado pranto e aflições. (Odisséia, Canto I – 236 a 243).
Estando em lugar de Odisseu, o que você faria? Iria preferir
uma vida eterna no esquecimento ou uma vida tormentosa ao lado dos seus?
O que sentem os familiares de alguém que, simplesmente,
desaparece sem dar notícias?
Talvez, o filme brasileiro, “Ainda estou aqui”, de 2024,
possa nos ajudar a refletir sobre essa questão. Ele conta a história de Eunice,
esposa do ex-deputado Rubem Paiva que desapareceu durante a ditadura militar,
levado pelos agentes do Estado, deixando a família sem respostas sobre o seu sumiço.
Nesse caso, ele não foi abraçado por uma deusa. A situação foi bem diferente,
mas serve para ilustrar nosso texto e para explicar as dores de
Telêmaco cujo pai havia desaparecido sem dar notícias.
1- Homero. A Odisseia. Versão digital, DigiLivro, 2026. Capa, adaptação,
edição e diagramação: Fernando César Morellato - Edição, adaptação e revisão:
Vanessa Pedroso



