A força da poesia

  Alguma vez na vida a poesia já lhe causou arrepios? Você já foi “desmontado” diante de um texto poético lido ou cantado? Isso costuma acon...

 

Alguma vez na vida a poesia já lhe causou arrepios? Você já foi “desmontado” diante de um texto poético lido ou cantado? Isso costuma acontecer, pois, a poesia em sua aparente fraqueza tem grande poder de encantamento e de transformação. Quem não para para ouvir a música Luar do Sertão por exemplo? Quem não fica pensativo diante de um texto de Manoel de Barros, de Cecília Meirelles ou Fernando Pessoa? A crônica de hoje vai falar sobre isso.

Odisseu, herói grego, da Guerra de Tróia foi para a guerra a contragosto e por causa dela passou cerca de vinte anos longe de casa. A vitória dos gregos aconteceu graças à sua astúcia de inventar um cavalo de madeira que foi introduzido na cidade fortificada cheio de soldados. Mas, a grande verdade é que numa guerra não existem vencedores. Todos perdem muito. Na volta para casa Odisseu perdeu-se no mar, perdeu os amigos, o barco e até a roupa do corpo. Nu, foi arremessado pelas ondas na Ilha dos Feácios, um povo bom e amigo dos deuses, onde foi muito bem recebido, conforme o costume daquele povo. Ofereceram-lhe banho, roupa nova e uma grande festa. Para alegrar a festa convidaram um poeta cego (Demódoco) para recitar seus versos. Nos versos cantados o poeta falava da Guerra de Tróia e sobre um dos soldados que se destacou na guerra. O nome do soldado era Odisseu! Sem saber que Odisseu estava presente o poeta falou muito bonito sobre ele e suas conquistas. Nessa hora Odisseu, que ainda não havia se apresentado, começou a chorar e para que ninguém o visse naquele estado cobriu o rosto. Aqui temos uma situação onde a poesia causou um desequilíbrio emocional no herói.

Naquele dia Demódoco, cantou três histórias:

1-A disputa entre Odisseu e Aquiles: A primeira canção narrava a briga entre os dois maiores heróis gregos no início da Guerra de Tróia. Ao ouvir sua própria história cantada com precisão como um mito vivo, Odisseu foi tomado pelo luto e procurou esconder as lágrimas.

“O poeta a cantar guerreiro canto /Cuja fama às estrelas se exaltava; /A rixa era de Ulisses e de Aquiles,/ Com ditos agros num festim sagrado;/ E o rei dos reis folgava, porque entrando,/ No estrear Jove a lide Grega e Teucra,/ Do Pítio Apolo no marmóreo templo, / O oráculo a vitória prometeu-lhe,/Dês que os melhores Dânaos contendessem./Prossegue o vate, a Ulisses à cabeça /  Com força deita o purpurino manto,/ Para encobrir nas morenadas faces / As lágrimas que a pares borbulavam. / No intervalo da música, as enxuga / E desce o manto, liba às divindades / Na bicôncava taça; quando, a rogos / Dos que a toada e a letra enamorava, / O bom cego as repete, o herói suspira / E, tornando a embuçar-se, esconde o choro”.(Odisseia – Canto VIII – 55 – 70)

2-Os amores de Ares e Afrodite: Uma narrativa cômica e leve sobre a traição de Afrodite com Ares e a armadilha de Hefesto, usada para descontrair o ambiente durante os jogos feácios. Hefesto surpreendeu a esposa com o amante na cama e prendeu-os numa rede para que todos os deuses do olimpo pudessem ver a cena da traição. Assim se considerou vingado pois, expôs os amantes à vista de todos.

3-O Cavalo de Tróia e a queda da cidade: A pedido do próprio Odisseu (que queria testar a habilidade do bardo), Demódoco canta o estratagema do cavalo de madeira e o saque final de Tróia. A descrição da dor, das perdas e da destruição fez Odisseu chorar compulsivamente — Homero compara seu pranto ao de uma mulher que abraça o marido prestes a morrer em uma cidade invadida.

A consequência desse pranto foi a revelação de sua identidade. O rei Alcínoo percebeu a comoção do hóspede, mandou interromper a música e perguntou sua verdadeira identidade. Foi esse momento de fraqueza provocada pela arte de Demódoco que forçou Odisseu a se revelar: "Eu sou Odisseu, filho de Laerte...". No Livro “Odisseia”, nessa parte Odisseu passa a fazer o relato de suas longas e famosas viagens desde a saída de Tróia.

O poeta (aedo) no Período Arcaico da Grécia Antiga (Séc. VIII a VI a. C) exercia importante papel na sociedade. Na verdade, ele era a memória viva, quase um místico que exercia importante papel na preservação da cultura e da memória. Numa sociedade sem escrita a memória oral garantia a preservação da história de um povo. Considerava-se que ele fosse inspirado pelos deuses protetores das artes e da música (Mnemósinee suas filhas, as musas). Por isso, sua palavra tinha um caráter verdadeiro e quase sagrado. Além de preservar a memória de um povo o poeta também era uma espécie de professor para a juventude e, por isso, o seu papel era tão respeitado. Com o surgimento da escrita a figura do poeta (aedo) foi, aos poucos, sendo substituída pelo rapsodo. Esse não improvisava mas, citava os textos já fixados nos pergaminhos. Como se pode ver, a poesia teve e ainda pode ter muita importância. Mas, num mundo dominado pelas telas será que a juventude ainda se emociona e muda a maneira de pensar por causa de um texto poético? O que você acha?

   Imagem em destaque: Odisseus comovido pelo canto de Demódoco. Fonte: whitemay / Getty Images

   

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  1. Ser poeta é dom de DEUS! E Padre Geraldo Gabriel tem este dom. Esta força cósmica transcendental que O leva para a comunicação do bem cultural.E isto é gratificante, porque DEUS nos pede pra não enterrar nosso talento. Ser poeta é muito sublime, é ser sensível as coisas do alto.Hoje é muito difícil encontrar pessoas que param para escrever uma música com conteúdo Teológico. Eu já escrevi 19 músicas. Fazer o arranjo é muito difícil. É saber encontrar o sentido profundo da mensagem. Também conhecer o compasso das notas. Obrigada Padre Geraldo Gabriel pelo lindo texto A força da poesia.

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