Salvo do afogamento por um véu
Depois de uma assembleia, no céu (Olimpo), Atena convenceu Zeus, seu pai, a permitir o retorno de Odisseu ao seu lar. Ele encontrava-se pr...
Depois de uma assembleia, no céu (Olimpo), Atena convenceu Zeus,
seu pai, a permitir o retorno de Odisseu ao seu lar. Ele encontrava-se preso na
Ilha Ogígia, de Calípso, a deusa de belas tranças. Nem mesmo os braços de uma
deusa, as promessas de juventude plena e eternidade feliz o convenceram a mudar
de ideia. Desafiando céus e mares ele só pensava em sua terra, no filho e
esposa deixados para trás quando partiu, sem querer, para a Guerra de Tróia. E
agora, após vinte anos ainda alimentava o sonho de revê-los, todos os dias!
Percebendo a tristeza do herói, Zeus ordenou, através de Hermes,
seu mensageiro, que Calípso o libertasse, coisa que ela o fez, a contragosto,
após uma última noite de amor intenso. Quando Posseídon, o deus do mar viu Odisseu
fugindo sobre uma jangada ficou irado e agitou o mar despedaçando-a nas grandes
ondas. Foi, então, que entrou em cena outra divindade marinha, Leucotéia, de
pés bem molhados. Penalizada ao ver a situação do herói que lutava entre a vida
e a morte, apareceu-lhe para ajudá-lo:
“Qual o motivo de estar contra ti tão zangado o que os muros
térreos sacode e que tanto te oprime com males sem conta? Não poderás
aniquilar-te, apesar de que muito o deseje. Presta atenção ao que digo, não
creio que o senso te falte; despe essas vestes e deixa a jangada ao sabor, tão
somente, dos próprios ventos; a nada, depois, vê se à terra feácia podes
chegar, onde o Fado te apresta encontrar-te salvamento. Toma este véu imortal e
o traspassa por baixo do peito. Dessa maneira não temas nenhum sofrimento nem a
morte...(Odisseia – Canto V, 339 -347)
Sem confiar muito na palavra da deusa, mas, também sem
alternativa, Odisseu despiu-se de sua roupa, montou-se num único tronco que sobrara
de sua jangada e, abraçando ao véu, ainda vagou por vinte dias antes de por os
olhos em terra. Atena, que o protegia acalmou os ventos e então ele conseguiu
adentrar o leito de um rio e, descer na Ilha dos Feácios. Após devolver o véu
ao mar, conforme orientação da deusa ele fez uma cabana e, extenuado, adormeceu
sob uma árvore na margem do rio até ser encontrado por Nausícaa, filha do rei
Alcínoo. Mas, essa é outra parte da história.
As nossas vidas se parecem à vida de Odisseu. Às vezes, temos
que matar um leão por dia para sobreviver, e as marés nem sempre nos são
favoráveis. Existem momentos em que o mundo parece conspirar contra nós e os
problemas aparecem todos de uma única vez, desafiando nossa capacidade para enfrentá-los.
Você, certamente, já passou por algumas crises e teve medo de naufragar. Nessas
situações alguém já lhe estendeu um véu para tirá-lo dos apuros? A história de
Odisseu ocorreu há três mil anos, mas a nossa odisseia ainda continua. Ninguém
está livre de provações e desafios. Você já estendeu o seu véu para salvar alguém
de uma situação difícil? Às vezes, temos que lutar com bravura contra as marés
que a vida nos apresenta. Quem foi sua Leucotéia que surgiu nas espumas brancas
das águas? Pense nisso!
Imagem: Gerada por IA (Gemini)



