Eles tinham medo de perguntar
Conheço pessoas que vão ao médico, mas preferem não ver o resultado dos exames e conheço outros que evitam os médicos para não ouvir seu...
Conheço pessoas que vão ao médico, mas preferem não ver o
resultado dos exames e conheço outros que
evitam os médicos para não ouvir seus conselhos. Muitas vezes, não perguntamos
para não ouvir a verdade e ter que mudar nossos hábitos por causa dela. A ignorância
é consoladora e nos deixa numa zona de conforto. Preferimos o sedentarismo às exigências de
ginástica, por exemplo. Nosso corpo não gosta de transpirar, gosta de “sombra
fresca e botina larga...” Em nossa relação com Deus também é um pouco assim:
preferimos não tomar consciência para não ter que mudar de vida e de atitudes.
Ao longo do Evangelho, muitas vezes, Jesus falou aos
discípulos de sua morte e das perseguições que sofreria em Jerusalém. “Prestai
bem atenção às palavras que vou dizer: O Filho do Homem vai ser entregue nas
mãos dos homens...” (Lc 9,43b-45). Pode haver anúncio mais claro do que
esse? E o texto continua: “Mas os discípulos não compreendiam o que Jesus
dizia. O sentido lhes ficava escondido, de modo que não podiam entender; e eles
tinham medo de fazer perguntas sobre o assunto...” Nessa questão os
discípulos compartilharam das mesmas atitudes dos anciãos, sumos sacerdotes e
escribas que se fizeram surdos diante da Palavra de Deus. Preferiram
não ouvir para não terem que mudar de vida.
Nós nos tornamos parecidos com os discípulos de Jesus quando celebramos
vitórias e cultuamos os bem sucedidos, mas, nem sempre sabemos conviver com as
derrotas. Os discípulos viram muitos milagres realizados por Jesus como: curas
de doentes, expulsão do mal, domínio sobre os ventos... Então, não estavam preparados
para verem Jesus fracassado, perseguido e morto. Por isso, voluntariamente, não
quiseram ouvir essa parte da conversa. O Evangelho afirma que “todos estavam
admirados com as coisas que Jesus fazia”. Nesse clima de comemoração como
poderiam dar ouvidos a uma fala derrotista? Todos estavam admirados com a ação
poderosa de Jesus em favor dos homens. Não se deram conta da ação dos homens
contra Jesus. Ao que parece, somente Jesus sabia disso. Ele fez questão de frisar:
“prestai bem atenção às palavras que vou dizer...” Mas, nosso ouvido é
seletivo e só ouve o que nos interessa. Essa parte da conversa em que Jesus
falava de sua morte os discípulos não ouviram. Estavam impregnados da ideia de
um messias triunfante, como se ele fosse um Rei Davi e viesse recuperar a
glória de Israel. Jamais poderiam conceber a ideia de um messias fracassado e
pregado na cruz. “O sentido (dessas palavras) lhes ficava escondido, de modo
que não podiam entender; e eles tinham medo de fazer perguntas sobre o assunto.” Esse medo dos discípulos tem sua origem em
Adão que também fugiu e se escondeu de Deus após pecar (Gn3,10). Deus chamou
por ele e ele se escondeu de Deus porque estava nu.
Deus, de fato, é surpreendente e o seu jeito de agir é muito
diferente do nosso. Para vencer nós temos que ganhar, mas, Deus vence perdendo.
Enquanto respondemos ao mal com um mal maior, Deus o absorve e o elimina em
suas entranhas de amor. Esse é o grande mistério da cruz. Antes de Jesus ela
era sinal de ódio e condenação, depois dele tornou-se sinal de amor e salvação.
Foi por isso, que Jesus não fugiu da cruz. Quis nos dar uma lição de como
vencer o ódio. Se na árvore da vida Adão foi vencido, na árvore da Cruz Jesus
venceu o inimigo. Somente após ser levantado na cruz Ele mostrou-nos o messias
que foi: O cordeiro de Deus que, sacrificado que não abriu a boca e nem
reclamou sendo obediente até o fim. Humanamente falando isso foi uma grande
derrota. Mas, Deus sabe o que faz. O que parecia derrota foi a grande vitória
sobre o mal. Isso os discípulos tiveram dificuldades para entender. Será que tal
dificuldade somente eles tiveram?
Foto: Arquivo Pessoal - Cruzeiro da Comunidade de Cachoeirinha, em São José da Varginha



