Congado não é Candomblé

Certa vez, presidi a missa com os congadeiros numa determinada capela em minha paróquia.   Naquele dia estava acompanhado por um cas...


Certa vez, presidi a missa com os congadeiros numa determinada capela em minha paróquia.  Naquele dia estava acompanhado por um casal de turistas alemães que me visitava. Percebi que eles ficaram muito curiosos com aquele jeito alegre de celebrar ouvindo as músicas sempre acompanhadas com palmas, tambores e movimentação. Na viagem de volta perguntaram-me sobre a relação do Congado com o Candomblé. Então, aproveito o momento para falar desse assunto.

O Candomblé é uma religião que já estava presente na África e veio para o Brasil. A palavra “Candon” refere-se a um tipo de tambor. “Blé” parece ser uma corruptela da língua portuguesa. Grosso modo, é a religião dos Orixás. Orixás, segundo essa crença, são entidades espirituais que comunicam aos seus filhos o axé, ou energia revitalizadora dentro do espaço do culto. Não existe no Candomblé a idéia de redenção. Também não existe idéia de inferno ou mesmo de satanás. É considerada uma religião monoteísta, pois só adoram uma divindade: Olorum ( na tradição Yorubá) ou Zambe (na tradição Banto). Os Orixás são apenas seres espirituais que transmitem força e guiam os adeptos através da leitura dos jogos de búzios ou conchas. Cabe ao líder religioso de cada Terreiro interpretara essas mensagens. Não há uma organização ou hierarquia entre os Terreiros. Cerca de vinte Orixás são venerados no Brasil.

O Congado é uma festa religiosa, Católica e prega o amor e devoção à Nossa Sra. Do Rosário e outros santos negros como São Benedito e  Santa Efigênia. A festa tem origem na África, aonde Portugal chegou antes mesmo da colonização do Brasil. Segundo o Dicionário da Religiosidade Popular de Frei Chico, o Catolicismo chegou ao Congo, Angola e  Guiné na segunda metade do Séc XV e em Moçambique no Séc XVI. Em 1526, houve uma primeira Irmandade de Nossa Sra. Do Rosário dos homens pretos na África, mais precisamente em São Tomé. Podemos constatar as irmandades católicas também em Cabo Verde (1500); Angola (1606) e Congo no Séc XVI.

Grande parte dos negros dessas regiões chegou como escravos ao Brasil e trouxe para cá suas tradições. Antes mesmo de pisar em solo brasileiro o escravo tinha que ser batizado. Mas, nem sempre havia preocupação em oferecê-los uma catequese. Aliás, o que havia era muita segregação. As irmandades dos brancos proibiam que negros e mulatos fossem afiliados nelas. Daí, os negros acabaram re-criando no Brasil suas irmandades. Era uma forma de garantir uma “meia inclusão” na Igreja e, conseqüentemente, na sociedade dos brancos. Essas irmandades acabaram erguendo igrejas dedicadas à Nossa Sra. Do Rosário e outros santos negros. Era uma forma de afirmação da cultura e dos valores de um povo. Em torno dessas igrejas as Festas do Rosário se organizaram. Por isso, tais festas carregam uma longa história! Uma história que nasceu na África e ganhou contornos no Brasil. O Congado ganhou influências do mar, da floresta, e dos pampas... Em Pará de Minas, temos, atualmente, cinco guardas ou grupos. Moçambique, Sagrada Família, Santa Clara, Marinheiro e Santa Efigênia. Em outros lugares temos grupos com forte influencia indígena. São os Penachos.

Os congadeiros são, antes de tudo, devotos de Nossa Senhora e amantes do Rosário de Maria. Por devoção cantam e dançam pelas ruas. Às vezes, recolhem donativos para algum problema social ou para ajudar no custeio das festividades. O ponto alto da festa é sempre a Santa Missa. No passado nem sempre foram acolhidos em nossas igrejas. Graças a Deus isso vem mudando muito e a diversidade ganhou mais espaço em nossas celebrações.
Por estar ligado à cultura popular o Congado assume características próprias dessa cultura: cores fortes, músicas simples e ritmadas, colares e terços cruzados ao peito. Levantam o mastro e  homenageiam os reis e rainhas da festa. Mas, o Congado não é só uma festa cultural. É uma festa católica e religiosa. Caso contrário não fariam questão da missa.

Alguns podem ver proximidade do Congado com o Candomblé. Talvez,  isso aconteça porque  ambas tradições vieram da África para o Brasil. Outros elementos de proximidade podem ser o uso do tambor das cores, das danças e colares...  De minha parte, gosto de ver o grande amor por Nossa Senhora que está presente no coração de cada irmão e irmã do Congado. Entre eles eu me incluo como mais um devoto da Mãe do Rosário.

Imagem de Manfred Richter por Pixabay 

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  1. Lindo texto, parabéns por esclarecer os fiéis!

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  2. Precisamos realmente de tirar nossas dúvidas muito obrigado e parabéns

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  3. Sempre achei que congado era macumba . Muito boa suas explicações padre

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  4. Boa noite,há sim revelações com as religiões africanas tais como o Candomblé e a Umbanda,principalmente essa última,na questão do sincretismo religioso,tendo em base que os negros não poderiam cultuar seus Orixás de Mãe África,então formou- se o sincretismo religioso,bom,ao meu ver.

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  5. Boa noite Padre,sua benção,bom dou historiador e congadeiro.O Congado é uma Cultura Afro- Brasileira,tal como o Candomblé,a Capoeira,dentre outras manifestações culturais e religiosas de origem negra. Sendo assim ele possue a questão do sincretismo religioso,ou seja, a mescla de elementos Cristãos Católicos com Elementos da Religião Afro,isso se deu devido ao aculturamento que africanos escravizados passaram aqui em terras brasileiras,porém,alguns elementos aderiram das várias missões dos jesuítas no continente africano,a irmandade do Rosário,não me lembro exatamente o ano,mais sei que foi criada pelos monges capuchinhos na Alemanha é toda como irmandade dos gentios,sendo assim a mesma acolheu os negros no períodos escravidão e lá eles recriaram uma sociedade tal como era na África,destas misturas se deu o Congado ou Congo.

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