Morreu afogado abraçado com a lua
Hoje vou falar de coisa rara. Falarei de Li Po, poeta chinês, que viveu entre 618 – 907 d. C. Também conhecido por Li ai Po, ou Li Bai. Li...
Hoje vou falar de coisa rara. Falarei de Li Po, poeta chinês,
que viveu entre 618 – 907 d. C. Também conhecido por Li ai Po, ou Li Bai. Li,
era seu nome de família e Tai Po, significava “grande brilho”. Esse nome lhe
foi dado pela mãe, pois, no dia em que ele nasceu ela viu, no céu, uma estrela
muito brilhante. Li Po nasceu em Chang-ming, província de Seu-tchawan, embora,
haja controvérsias sobre isso. Teve uma educação muito aprimorada e tornou-se
doutor com apenas vinte anos. Em 742, já casado com Han Chou, mostrou seus
versos ao Príncipe Ho Chi Chang e ele encantou-se com sua poesia. Após esse
encontro, assumiu a cátedra na Universidade de Hang Ling. Em 746 tornou-se uma
espécie de poeta oficial da corte. Vítima de intrigas palacianas chegou a ser
preso, sendo inocentado logo depois. Ausentando-se da corte passou dez anos em
meditação nas montanhas e visitou muitas províncias e tabernas do império. Sua
morte aconteceu no ano de 762 de maneira poética e controversa. Mas, antes de
falar dela vou transcrever um de seus poemas que já falam do seu fim. Ele se
intitula, “Passeio entristecido”:
O lago Nan-hu embala a
lua de outono
Que reflete na água
verde.
O rumor de meus remos
interrompeu
O hino de amor
Que os nenúfares
(lírios d’água) cantavam á lua...
Dizem que Li Po morreu afogado, tentando abraçar a lua
refletida no lago. Se essa versão de sua morte não for real, pelo menos
assegurou um final poético a quem sempre amou a poesia. Pelo visto, ele gostava
de ficar no barco à noite refletindo sozinho, sentindo o aroma das flores e
apreciando o brilho da lua que dançava sobre as ondas. Em um de seus poemas ele
menciona três amigos que encontra na solidão: Ele, sua sombra e a lua. São
encontros que ocorrem na “via Láctea”. “Bebo sozinho ao luar”, é o nome da poesia que segue:
Entre as flores há um
jarro de vinho.
Sou o único a beber: não
tenho aqui nenhum amigo.
Levanto a minha taça,
oferecendo-a à lua:
Com ela e a minha
sombra, já somos três pessoas.
Mas, a lua não bebe, e
a minha sombra imita o que faço.
A sombra e a lua,
companheira casuais,
Divertem-se comigo, na
primavera.
Quando canto, a lua
vacila.
Quando danço, a minha
sombra se agita em redor.
Antes de embriagados,
todos se divertem juntos.
Depois, cada um vai
para a sua casa.
Mas eu fico ligado a
esses companheiros insensíveis:
Nossos encontros são na
Via Láctea.
Cecília Meireles, que traduziu seus poemas para a língua
portuguesa, nos fala sobre sua morte: “Essa
versão de sua morte pode ser puramente lendária, dados o encanto com que ele
sempre se ocupou da lua, nos seus versos e a circunstância de celebrar também
constantemente o vinho como se, na verdade, o seduzisse o estado de embriaguez
como uma flutuação entre a vida e o sonho”.
Para terminar cito outra poesia de Li Po chamada “A dança dos
deuses”:
Pus toda a minha alma
numa canção
Que cantei para os
homens. E os homens se riram!
Tomei meu alaúde, fui
sentar-me no topo de uma montanha,
E cantei para os deuses
a canção que os homens
Não tinham entendido.
O sol baixava. Ao ritmo
da minha canção, os Deuses dançaram
Nas nuvens encarnadas
que flutuavam no céu...
Um poeta consegue ver o mundo transparente onde a realidade vista, apenas, aponta para outra que é invisível à maioria dos homens. Sendo assim, não é de se estranhar, que a morte do poeta também seja diferente. Um poeta não morre, ele tomba sobre a própria sombra para se tornar encantado.
Texto inspirado na leitura do livro: Poemas Chineses, Li Po e Tu Fu. Trad: Cecília Meireles. RJ, Nova Fronteira, 1996
Imagem de miso super por Pixabay




"Um poeta consegue ver o mundo transparente onde a realidade vista, apenas, aponta para outra que é invisível à maioria dos homens." 👏👏👏👏
ResponderExcluir"Um poeta não morre, ele tomba sobrea a própria sombra para se tornar encantado". Lindo isto. A poesia esvai no nosso espírito. Refresca a alma.
ResponderExcluir👏🏻👏🏻👏🏻 obrigado por compartilhar padre. E que a vida nos dê a sabedoria de uma poeta para “ver o mundo transparente “, sem julgamentos.
ResponderExcluirNada a comentar, apenas saborear esta escolha que fez deste sensível poeta, e nos transmitiu informações que não teríamos, mas no garimpo de suas leituras esta de hoje muito agradou.
ResponderExcluirQuanto a melancólica música escolhida, combinou bem com o final.
Que lindo! Aprecio o transcrever de um poeta.
ResponderExcluirPois tem clareza diferenciadas em suas visões e atribui de forma doce , encantadora , louca ,divertida !
É portador de uma sensibilidade incrível, que mexe com nossa imaginação.
Percebe o mundo de forma única!
Um Poeta faz história,ele carrega na alma,uma força cósmica transcendental.E sua comunicação leva sempre para o bem cultural.O Poeta trabalha por inspiração,mas quando isto é impossível, por desespero.O Poeta carrega dentro de si a felicidade Vive só, mas não se aflige, porque sabe que DEUS está muito perto dele. Obrigada, Padre Geraldo Gabriel pela linda história de um sensível Poeta!
ResponderExcluirLinda história Padre Geraldo, mexe com a nossa imaginação, trazendo lembranças do passado
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