Eu não mereço desamarrar suas sandálias
Ao ver que o povo estava lhe confundindo com Jesus João fez esse alerta: “Eu não sou o Messias. Não mereço desamarrar a correia de suas sand...
Essa história das sandálias vai longe. No texto de hoje vou
buscar, em duas tradições, um pouco do simbolismo desse objeto.
O Povo de Israel passou por inúmeros desafios ao longo da
história. Um deles era o risco de desaparecer enquanto povo. Voltemos ao tempo
para perceber que ele não passava de um grupo nômade sem terra ou riquezas. A
Bíblia afirma isso: “Então, vocês
declararão diante do Senhor, o seu Deus: O meu pai era um arameu errante que desceu
ao Egito com pouca gente, ali viveu e se tornou uma grande nação, poderosa e
numerosa” (Dt 26, 5).
Em sua história milenar, aos poucos, o Povo de Israel foi
criando leis próprias visando protegê-lo enquanto povo e organizando a
vida coletiva. Uma dessas leis foi chamada de “Levirato”(Levir, do latim =
Cunhado). Essa lei obrigava o irmão de um homem falecido sem deixar filhos, a
casar-se com a viúva (cunhada), a fim de gerar descendência para o morto e
perpetuar seu nome e sua herança familiar (Dt 25, 5 - 10). Entretanto, se tal
homem não quisesse tomar sua cunhada, ela deveria dirigir-se aos anciãos nas portas
da cidade e dizer: “Meu cunhado se nega a
manter de pé o nome de seu irmão em Israel! Não quer cumprir comigo seu dever
de cunhado! Então, ela irá tirar-lhe a sandália do pé, cuspir-lhe no rosto e
dizer assim: Isso é o que se faz com um homem que não constrói a casa de seu
irmão. Então ele ficará com o apelido de “casa do descalçado” ( Dt 25, 9
ss).
Calçar as sandálias, nesse caso, era ocupar, de certa forma, o
lugar do irmão falecido, assumir o lugar do noivo, ainda que fosse para
resolver uma situação. Não sei se João Batista pensou nisso quando disse não
ser digno nem de desatar as sandálias de Jesus. Mas, uma coisa é certa. Ele não
queria assumir o lugar do noivo, quando muito, era seu amigo. Veio, apenas,
para preparar um casamento. “Convém que ele cresça e eu diminua...”
O Ramayana, um livro clássico indiano também mostra uma
situação interessante onde as sandálias são mencionadas: Rama era um
grande líder admirado por todos. Para cumprir o seu Dharma (algo como destino?)
ele teve que se refugiar na floresta por catorze anos. Ninguém conformou muito
com aquilo, pois, todos o estimavam muito. Seu irmão Bharata, o procurou para
fazê-lo mudar de ideia mas não deu resultado. Bharata, então, levou as
sandálias dele e as colocou num trono luxuoso enquanto passasse o seu
tempo de exílio:
“Bharata pôs as sandálias de Rama no trono aurirrubro de Ayodhya. Sobre
elas estendeu o guarda-sol de seda branca com varetas de ouro e o leque branco
de cauda de iaque, de prata e esmeralda. Bharata e Satrughna vestiram mantos de
cascas de árvores e sentaram-se aos pés do trono. Todos os dias, os ministros e
nobres de Kosala saíam de Ayodhya envergando cascas de árvores, como eremitas.
Inclinavam-se diante das sandálias de Rama como diante de um rei. Os guerreiros
vestiam-se como santos vagamundos à procura do Senhor, esmolando pelo caminho.
As sandálias de Rama permaneciam imóveis quando se fazia justiça perante o
trono, mas se algum caso fosse mal julgado, batiam rapidamente uma na outra
suas sonoras solas de madeira” (1).
Aqui temos uma segunda situação onde alguém não quis usurpar
o lugar do outro. Bharata poderia ter se aproveitado da situação e tomado o
trono do irmão. Mas, ele o resguardou, com respeito, até que o irmão retornasse
para assumi-lo. Na ausência dele reverenciava suas sandálias que, de alguma
forma o respondiam quando ele tomava uma decisão acertada.
Como se pode perceber, às vezes, um simples objeto representa
muita coisa. As sandálias de alguém muito
santo o representa, de alguma forma, como uma relíquia. Por isso João não se
achava digno de desamarrar e muito menos de calçar as sandálias de Cristo. Enquanto
muita gente se especializa em golpes até mesmo nos ambientes familiares João é
uma grande referência ética em todos os tempos. Temos muito o que aprender com
ele.
Imagem de just__me por Pixabay
1- Buck, William O Ramayana / o clássico poema épico indiano recontado em prosa por William Buck ; tradução Octavio Mendes Cajado. -São Paulo : Cultrix, 2011, pg 202




Q sejamos imitadores de João, saber olhar pra si e saber quem vc é, sem medo da verdade, essa foi uma das grandes virtudes de João... Que Deus nos dê a graça da humildade...
ResponderExcluirJoão sabia o lugar dele.
ResponderExcluirIsso já é um tapa de luva...
O testemunho de João Batista é realmente surpreendente e nos ensina bastante a termos obediência, fidelidade, autenticidade além da ética e humildade, João preparou muito bem os caminhos do Senhor e nós conseguiremos seguir os caminhos do Mestre?
ResponderExcluirPadre, o Senhor sempre nos leva a ter conhecimento de leituras interessantes que faz. Na explicação do evangelho sobre a humildade de João, que se fosse vaidoso, tomaria o titulo do mestre Jesus, já que o confudiram como sendo o messias, mas ele tinha clareza de sua missão. Com certeza a palavra sandália o levou a rememorar um poema indiano, a frase que João disse "Não sou digo de desamarrar suas sandálias", e assim, enxertou informações de uma sandália, que teve também a dignidade de ser simbolicamente respeitada, quando da ausência do seu dono.
ResponderExcluirOusei dar minha interpretação, mas termino dizendo que caprichou na escolha de uma linda música.
Interessante conhecer as duas tradições da sandália. João Batista, imediatamente reconheceu a superioridade de Jesus em relação a ele. Que saibamos também a reconhecer Jesus !
ResponderExcluirSenhor dai-me a humildade e a simplicidade de João.
ResponderExcluirA humildade de João nos ensina a sermos humildes e nos colocarmos no nosso lugar. A ganancia de muitos, faz com que o mundo se torne um caos.
ResponderExcluirPodemos olhar sobre uma outra ótica das palavras de São João Batista. Vejo como um ato de humildade e reconhecimento da nossa pequenez diante do Sagrado. De não sermos nem mesmos capazes de desatar as correias da sandálias do nosso Salvador. Porém, concordo que hoje não temos essa mesma humildade e reconhecimento do nosso lugar. Antes do falecimento, já estamos tentando tomar-lhe as sandálias.
ResponderExcluirSenhor daí paz e humildade a esse sr João 🙌🙏👏
ResponderExcluirr João nos dá lição de humildade e fidelidade a Jesus. A sandália me lembra também afeto e aconchego.Quer coisa melhor chegar em casa tirar os sapatos e calçar Quela sandália velha e macia?
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