O limbo de Dante: um lugar sem fogo e sem graça

  Na minha infância ouvia dizer que as criancinhas que morriam sem receber o batismo não iam para o céu. Mas, também não iam para o inferno....

 


Na minha infância ouvia dizer que as criancinhas que morriam sem receber o batismo não iam para o céu. Mas, também não iam para o inferno. Então era necessário arranjar um compartimento específico para elas. Esse compartimento era o “limbo”. Mas, de onde vem essa ideia? Após ler a Divina Comédia de Dante Alighieri entendemos a questão. O limbo era o primeiro degrau do inferno onde ainda não havia punições físicas aos condenados. Era um lugar sem sal e sem graça onde as horas não deveriam passar. Ao visitar o limbo Dante ficou impressionado com o grande silêncio do lugar, silêncio interrompido, apenas, por profundos suspiros que faziam o ar tremer. A luz parecia a de um entardecer que nunca terminava. Era um lugar de beleza triste, um refúgio para aqueles que embora não tivessem pecado, não puderam alcançar a graça divina por não terem conhecido a fé ou recebido o batismo.

Naturalmente nada se compara às belezas do paraíso, mas, no limbo as pessoas também poderiam gozar de grandes companhias: Aristóteles, Platão...

“O Mestre vejo dos que mais se acimam / Em saber de filósofos cercado. / Todos com honra e acatamento o estimam. / Aqui Platão e Sócrates estavam, / Que na grandeza mais se lhe aproximam. / Demócrito, o atomista, acompanhavam / Zeno, Heráclito, Tales e Anaxágora, empédocle e Diógenes falavam, / Dióscoris, o que a natura outrora / Sábio estudara, Orfeu, Túlio eloquente, / Sêneca, o douto que a moral explora, / Livio, Euclides, Hipócrates ingente, / Galena, Plolomeu, o o Avicena; / Averróis, nos comentos sapiente...” (1)

Após ler essa parte da Divina Comédia sobre o Limbo, até me de vontade de passar uma temporada por lá, somente para gozar de tantas companhias ilustres, inclusive a companhia do próprio Virgílio que também estava lá e só saiu para guiar Dante nessa excursão ao mundo dos mortos. O Limbo foi comparado a um castelo cercado por sete muros onde vivem todos esses que não receberam a graça do batismo e, portanto, não conheceram a salvação que ele nos trouxe. Algumas pessoas, no entanto foram resgatadas do Limbo pelo próprio Cristo que lá desceu para tirá-los. Dante perguntou a Virgilio se alguém já havia saído daquele lugar e ele respondeu:

“Descer súbito, vi forte guerreiro (Cristo)/ De triunfal coroa era cingido, / Almas levou – do nosso pai primeiro (Adão), / Abel, Noé, Moisés, que legislara, / Abraão, na fé na obediência inteiro, /  Davi, que sobre o povo hebreu reinara,/ Israel com seu pai e a prole basta, / E Raquel, por quem tanto se afanara./ Para a Glória outros muito mais se afastam/ do Limbo; e sabe tu que antes não fora  / Salvo quem pertencera à humana casta” (Canto IV, Op. Cit).

Aqui sem pronunciar o nome de Cristo Dante o cita como “Forte Guerreiro” cingido com uma coroa que desceu à mansão dos mortos para resgatar algumas almas que não tiveram o privilégio de o conhecerem.  

Estando no Limbo Dante teve uma visão que lhe deu forças para continuar sua viagem. Trata-se de sua musa inspiradora que lhe dirigiu a palavra:

“Ó gentil alma mantuana, cuja fama no mundo ainda dura, e durará enquanto o mundo for mundo, um amigo meu, mais meu do que da fortuna, em cujas faces o medo se estampa, encontra-se na inóspita praia impedido de caminhar. Temo que esteja tão perdido que o socorro agora não lhe sirva mais, segundo o que escutei no céu. Agora anda, e, com tua palavra ornada e com todos os meios de que dispuser, ajuda-o e assim me sentirei consolada. Sou Beatriz, venho do lugar para onde se deseja voltar, amor me move e me faz falar. Quando eu estiver à frente do senhor meu, louvar-te ei para sempre” (2)

Beatriz confessou a Dante que à pedido de Nossa Senhora e Santa Luzia, ela foi enviada para guia-lo, no mundo dos mortos. Assim sendo, além da companhia de Virgílio o grande poeta Dante contava com a proteção do céu. O número três marca a Divina Comédia. Ela está dividida em três partes e agora Dante pode contar com três protetoras.

Que lições podemos aprender com essa parte de nossa conversa. Tomo para mim que a companhia do amor nos ajuda a vencer os maiores obstáculos da vida. Na mitologia grega alguns personagens que conseguiram descer ao inferno (Hades) e sair de lá com vida só o fizeram por causa de um grande amor. Assim aconteceu com Orfeu que foi buscar Eurídice o grande amor de sua vida e com Enéias que desceu na assombrosa mansão para ver o rosto de Anquises o seu pai.

E você? Seria capaz de descer aos infernos para encontrar-se com um grande amor?

 

1-     Alighieri, Dante. A Divina Comédia, Trad: José Pedro Xavier Pinheiro – Dois Irmãos, RS: Clube de Literatura Clássica. 2020 – Canto IV – 132 – 144)

2-     Alighieri, Dante. A Divina Comédia. Trad: Eugênio Vinci de Moraes. L&PM Editores (Versão Kindle) – Canto IV e Canto II ( Fala de Beatriz).

Imagem de Zafer por Pixabay

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