Carlota Joaquina: a fêmea de sete cios

  Recentemente, num programa de rádio, comparei alguns motoristas mal-educados à Carlota Joaquina. O exemplo me ocorreu tendo em vista que, ...

 


Recentemente, num programa de rádio, comparei alguns motoristas mal-educados à Carlota Joaquina. O exemplo me ocorreu tendo em vista que, por onde passava a dita cuja, todo mundo tinha que abrir caminho para ela. Muitos motoristas são assim também. Todos têm que abrir caminho para que eles possam passar em alta velocidade.  Além disso, diante da beldade Carlota, que tinha bigodes e falava grosso, todos deveriam se inclinar. Àquele que não o fizesse estava sujeito à chicotadas. Isso trouxe grandes dissabores a Dom João. Por causa desse comportamento da madame ele teve que contornar muitos incidentes diplomáticos.

Carlota Joaquina foi uma figura que marcou a história do Brasil embora sua ambição fosse ser rainha de toda a América Latina, nem que para isso, tivesse que “passar a perna” em Dom João. Aliás, em se tratando de “passar a perna” ninguém ganhava da princesa de temperamento quente e agitado. Com, apenas, 32 anos já somava nove partos! A mulher era o bicho! Às vezes, vestia-se como homem, andava mancando e tinha bigodes, mas falava latim, francês, italiano e uma enxurrada de palavrões! No início do “romance histórico” de João Felício dos Santos (1), temos uma descrição sobre Carlota:

Inteligente e culta (sabia várias línguas, matemática, navegação...), imiscuindo-se sempre nos negócios do reino, perturbando por gosto e por cálculo o trabalho dos sucessivos gabinetes cujos alguns titulares foram realmente os grandes auxiliares de Dom João em suas notáveis decisões; corajosa e sagaz; de uma infidelidade só comparável à própria fecundidade; injusta, feia e pouquíssimo asseada; voluntariosa; destituída de escrúpulos e sutilezas; Carlota Joaquina era dotada de profunda personalidade. Cheia de atributos masculinas (a voz era grossa, as pernas varonis, tinha pelos nos braços, no rosto...), casada aos onze anos incompletos, logo na noite nupcial quase arranca, com tremenda dentada, o lóbulo da orelha direita ao pacífico marido. Em outra tentativa para consumar o ato nupcial ela atirou-lhe um candelabro na cabeça abrindo um corte considerável (Página 09).

Como se pode ver pelo relato, a mulher era mesmo apimentada. Isso justifica o título desse artigo: “A fêmea de sete cios”. Dizia Pe. Lagosta, cronista da ocasião, que Carlota Joaquina tinha incrível personalidade, até para dar uma dentada. Pelo visto, foi dele o verso de cordel que apareceu com os dizeres:

“A gatinha mordeu o gato numa noite de embrulhada e o gato que só cheirou, apanhou... não fez mais nada!” O gato, no caso era dom João que andava conformado com tudo, afinal, pai é quem cria, não é mesmo? Sobre Dom Miguel de paternidade duvidosa também fizeram versos: “Nem de Pedro nem de João mas, do caseiro do Ramalhão...”

Dom João veio parar no Brasil, às pressas, fugindo de Napoleão Bonaparte. De forma repentina, teve que usar quase quarenta barcos para sair de Portugal, trazendo ao Brasil cerca de dez mil pessoas! Uma infinidade de cortesãos, parasitas, aventureiros e puxa-sacos, acompanhou a família real numa das viagens mais pitorescas da história. Essa “odisseia” começou na manhã de 29 de novembro de 1807. No corre-corre do embarque, muita coisa e muita gente ficou para trás. Carlota veio xingando e maldizendo a sorte. A depender dela teriam enfrentado Napoleão com todo seu exército. Dom João trouxe Dona Maria, sua mãe, chamada “a louca” que, certamente, deu muito trabalho na travessia do Atlântico. Influenciada pelo clero que tirava proveito de sua loucura a mulher via o diabo em tudo. Pelo menos, essa é a impressão deixada quando lemos os relatos sobre a travessia da família real de Lisboa para o Brasil. Carlota não gostava de negros e chamava a nova terra de terra de “monos” (macacos) e terra de pretos.

Chegando ao Rio de Janeiro em 1808, como uma invasão de gafanhotos os parasitas tiveram que desalojar os moradores locais para que pudessem ocupar seus imóveis, além de explorar, em todos os sentidos, a nova terra e  seus habitantes. Muita gente perdeu a moradia tendo que ocupar os subúrbios do Rio de Janeiro, assim que a comitiva invasora desembarcou no local:

Os despejos aconteceram em massa. Tudo, da noite para o dia, num afã num burburinho, numa azáfama sem regras. Mais tarde, e entre muitas outras irregularidades, os despejos tornaram-se ainda mais sumários. E eram tristes os despejos: bastava a inscrição, a giz ou carvão, de um “PR” na porta de uma residência qualquer, escrita no fusca noite por difusas mãos (em geral velhacas), para que a casa, móveis, benfeitorias, servidores e escravos, capoeiras e carruagens, fosse requisitados para qualquer dos invasores, em nome do príncipe real. Daí, o “PR” que o povo, depois de perceber a exploração, traduzia por “ponha-se na rua! Daí as cacetadas como única retribuição aos recalcitrantes...” (Página 119).

Com a presença da família real no Brasil a corrupção correu solta. Até as aias (servidoras) da rainha procuravam tirar proveito da situação. Todos pareciam “refinados gatunos”, e em nome de suas ambições e mordomias não temiam prejudicar nem mesmo os enfermos. Chegaram a requisitar as galinhas que serviam de alimento aos enfermos da Santa Casa para a família real (Página 184). Conforme se sabe Dom João amava morder uma coxinha de frango! Dizem que comia muito e ainda e punha os pedaços nos bolsos para comer depois.

Hoje, quando vemos imigrantes brasileiros que sofrem preconceitos em Portugal, temos que lembrar dessas coisas. A mentalidade colonialista precisa ser superada. O Brasil acolheu, sustentou e manteve o luxo de muita gente que hoje conta vantagem pelo mundo a fora. Carlota Joaquina não foi a única merecedora de uma biografia pelo seu histórico de extravagância e preconceito. A história dessa gente não pode cair no esquecimento e nem deve ser vista, apenas, de um lado. É certo que, muita gente pagou caro, e ainda paga, para manter o luxo e os privilégios de outros.  

1-     Santos, João Felício. Carlota Joaquina, a rainha devassa. RJ, José Olympio, 2008.

      Imagem de Ryan McGuire por Pixabay

     

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