Não há flores na porta do céu
Não há nada pior do que encontrar uma porta fechada após uma longa viagem. Certamente, isso já lhe ocorreu quando quis fazer surpresa a um...
Não há nada pior do que encontrar uma porta fechada após uma
longa viagem. Certamente, isso já lhe ocorreu quando quis fazer surpresa a um
amigo. Você se arrumou, preparou o presente, cuidou dos preparativos, mas, ao
chegar, encontrou somente a porta fechada.
Quando isso acontecia em minha infância, a gente colocava algumas flores
na porta para que o amigo soubesse, ao retornar, que tinha perdido uma visita. Vou
usar essa imagem para falar de outra realidade.
A vida de todos nós se assemelha a uma viagem. Somos todos
caminhantes para o céu. Como seria triste se, ao final da vida, encontrássemos
a porta do céu fechada. Mas, Cristo mostrou-nos que esse risco é bem pequeno.
Vou explicar isso com alguns versos que não são meus:
“Deu a fé novamente aos
perdidos, deu aos cegos de novo a visão. Quem não há de perder todo o medo vendo o
céu ser aberto ao ladrão?” (1)
De fato, quem abriu para nós a porta do céu foi Jesus e o fez
sem nenhum merecimento de nossa parte. No alto da cruz salvou o ladrão que
suplicou-lhe misericórdia na hora da morte. Não lhe pediu para mudar de vida, pois, ele nem tinha vida mais para que pudesse mudar. Apenas o salvou graças à sua
bondade. Esse gesto foi tão grandioso que assustou até mesmo os anjos no céu:
“Eis o fato que aos
anjos assombra: ver o Cristo na cruz como réu, e o ladrão que com ele padece
conquistar a coroa do céu...”
A coroa do céu não foi conquistada pelas virtudes daquele
homem e nem pelas nossas supostas virtudes, mas, pelo amor de Deus que se
entregou por nós quando se fez homem e morreu numa cruz. Somente um Deus
humanizado poderia restituir-nos à pureza da criação:
“Admirável, profundo
mistério: lava a carne da carne a fraqueza e, tirando os pecados do mundo,
restituiu-lhe a antiga nobreza”.
Certa vez, Jesus disse: Eu sou a porta, quem entrar por mim
será salvo; entrará e sairá e encontrará pastagem ( Jo 10,9). Aqui Jesus se nos apresenta como pastor do
rebanho mas, também como porta, uma porta que conduz à vida, às verdes
pastagens. São Gregório Magno comentando essa passagem bíblica dizia que o
Cristão:
“Entrará, (por essa
porta) efetivamente, abrindo-se à fé; sairá passando da fé à visão e à
contemplação, e encontrará pastagem no banquete eterno. Suas ovelhas encontram
pastagem, pois todo aquele que o segue na simplicidade de coração é nutrido por
pastagens sempre verdes. Quais são afinal as pastagens dessas ovelhas, senão as
profundas alegrias de um paraíso sempre verdejante? Sim, o alimento dos eleitos
é o rosto de Deus, sempre presente. Ao contemplá-lo sem cessar, a alma sacia-se
eternamente com o alimento da vida...” (2)
Na porta que é Cristo, entramos pela fé e só sairemos para a
eterna contemplação divina. Sendo assim, jamais encontraremos fechada a porta
do céu. Por isso você não precisará se
dar ao trabalho de colocar flores naquela porta. Fechada por Adão, em virtude dos
pecados foi definitivamente aberta por Cristo que pagou com seu sangue pelas
nossas faltas. Quando você morrer peça para colocar flores em suas mãos, mas,
não para deixá-las na fechadura e sim para enfeitar a Casa de Deus cuja porta
estará sempre aberta por aquele que também teve aberto o peito para sua salvação.
1- Versos tirados do Ofício das Leituras, do Quarto Domingo de Páscoa. 2- Das Homilias sobre os Evangelhos, de São Gregório Magno, papa (Hom. 14,3-6:PL 76,1129-1130 – Séc VI)
Imagem de João Lima por Pixabay



