Sobre o cabo da vassoura

Gastei um tempão para escrever esse texto. Queria falar de coisas sérias usando objetos simples. A pretensão era a mesma de sempre: Escrever...

Gastei um tempão para escrever esse texto. Queria falar de coisas sérias usando objetos simples. A pretensão era a mesma de sempre: Escrever de maneira simples, mesmo que o tema fosse complexo. Por isso, tomei a vassoura como fonte de inspiração. Todo mundo conhece uma vassoura. Ela faz parte do mundo doméstico. Pode ser confeccionada com um simples ajuntamento de ramos ou ser adquirida facilmente no comércio. Meu pai sabia fazer vassouras como ninguém. Andava longe para buscar folhas de um determinado coqueiro para o seu engenho.

Dentre outras coisas, a vassoura lembra-me o governo de Jânio Quadros. Jânio, ao que parece, foi um grande conservador travestido de revolucionário. Congelou os salários e desvalorizou a moeda, mas ao mesmo tempo, condecorou o Ministro Cubano, "Che" Guevara e reatou relações diplomáticas com o bloco socialista. A vassoura, em suas mãos, foi instrumento de marketing político. Com ela, prometia varrer a sujeira e a corrupção no país. Ficou famoso o seu jingle de campanha para presidente em 1960, produzido por Maugeri Neto: "Varre, Varre, Vassourinha..." Certamente, sua vassoura ainda não foi usada. Basta abrir os jornais e você verá que,  até hoje, permanece muita sujeira para ser varrida…

Na Idade Média,  a vassoura passou a ser o veículo de transporte de todas as bruxas.  Em noites de lua, chamadas por Diana, divindade romana (Ártemis, no mundo grego), elas voavam sobre as vassouras para participarem do sabá (culto ao diabo). Para  freqüentar a "vauderie"(sabá), as bruxas untavam o corpo com um ungüento especial com a ajuda de uma pequena vara, que em seguida, colocavam entre as pernas para voarem. Assim, podiam percorrer distâncias longas a uma grande velocidade para cultuarem o "príncipe das trevas". Hoje, as feiticeiras parecem estar em crise, mas as "vassouras de bruxas" nunca incomodaram tantos os agricultores. Falando sobre o tema em seu livro "Pimenta", da Editora Paidós (2025) o escritor Rubem Alves conta outra versão para essa realidade. Mas, é melhor não descermos aos detalhes, sobre essa história, para respeitar as crianças na sala...

E por falar em crianças é bom dizer que, as crianças gregas e romanas, bem como as parturientes, morriam de medo de Fauno (Pã, no mundo grego). Fauno era uma divindade rural que gostava de raptar as criancinhas. Para evitar que isso acontecesse, costumavam colocar uma vassoura atrás da porta. Ainda hoje, adotamos esse costume para espantar certas visitas indesejáveis. Caso a simpatia, não funcione, tenho outra que é infalível: Tirar a vassoura de trás da porta e dar com ela no lombo do visitante. Garanto que essa funciona, mas  é preciso ter muito cuidado, com a possível reação do "apanhante".

Na fazenda em que nasci, junto com outros meninos eu costumava amarrar as pontas das vassouras que margeavam os trilhos. Feita a armadilha, a gente se escondia nas proximidades para ver os tombos e  ouvir os palavrões. Aquilo, sem dúvida, dava grande azar para o caminhante, e às vezes, para nós, principalmente, quando chegava aos ouvidos de mamãe.

No imaginário católico brasileiro, a vassoura também não ficou de fora. Ao que parece, pelo menos no Maranhão a devoção à N. Sra. das Vassouras é uma realidade. Sua missão é varrer tudo o que não presta da vida dos devotos. Por causa disso, ela deve estar morta de canseira!  Quero invocá-la para concluir esse pequeno texto. Caso contrário, quem corre o risco de umas vassouradas sou eu. E tenho dito!

Imagem de Lumpi por Pixabay

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  1. Gostei deste texto, lembro quando criança, gostava de varrer o quintal para brincar de casinha. Mamãe fazia biscoito, varria o forno com vassoura feita de ramos de alecrim. Um cheiromuito agradável. Meu pai fazia vassoura para vender.palha de licori

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  2. Quem gosta de escrever, qualquer objeto é fonte de inspiração. Hoje foi a vassoura que mereceu esta distinção.
    Atualmente, bem, já faz algum tempo que tenho comprado as vassouras feitas de garrafas pets, e são vários motivos para a escolha. Acredito que elas são mais artesanais, são ecologicamente corretas, dando um bom destino para os plásticos das garrafas, conjugado a estes fatores, dão melhor resultado ao varrer principalmente em terra. Quem não experimentou deixo a sugestão.
    Acho que sou uma boa "garota", melhor dizendo, idosa para fazer propaganda.
    Terminou este tirando do baú a música de campanha do Jango, um político demagogo como muitos. GOSTEI.




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  3. Padre Geraldo como o Brasil está carente de uma poderosa vassoura para limpar tanta sujeira, roubalheira e corrupção. Tenho pena e preocupação com as próximas gerações. Que Brasil elas vai encontrar,?

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  4. Kkkkkkk...."Caso a simpatia, não funcione, tenho outra que é infalível: Tirar a vassoura de trás da porta e dar com ela no lombo do visitante. " Valeu!!!! Abraço 🤗

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