Beijou as mãos do assassino de seu filho
Você seria capaz de beijar as mãos de quem assassinou seu próprio filho? Certamente, que não. Esse tipo de comportamento, inusitado, está ...
Você seria capaz de beijar as mãos de quem assassinou seu próprio
filho? Certamente, que não. Esse tipo de comportamento, inusitado, está descrito
no canto 24, último canto da Ilíada, de Homero. Mas, quem teria feito isso e
porque razões o fizera? É o que veremos nesse pequeno texto. Vamos lá?
Os dois livros clássicos, Ilíada e Odisseia, atribuídos a
Homero, estão repletos de deuses e heróis. Ambos falam de uma longa guerra
entre gregos e troianos, onde os guerreiros são manipulados pelos deuses e
deusas que se dividem no olimpo. Uns se colocam do lado dos gregos e outros do
lado contrário. O que acontece na terra é um mero reflexo de uma briga nas
esferas superiores.
Após muito desfile no campo de guerra Aquiles, um dos
melhores soldados gregos conseguiu matar Heitor, filho de Príamo, rei de Tróia.
Aquiles ficou uma fera quando soube que Heitor havia matado Pátroclo seu amigo
especial. De luto, jurando vingança Aquiles moveu céus e terras e conseguiu finalmente
matar o assassino de seu amigo. Como se não bastasse arrastou o corpo de Heitor
pelas areias do deserto e o levou para o seu acampamento. Todos os dias Aquiles
torturava aquele corpo morto pensando na morte de Pátroclo.
Em Tróia o luto foi imenso. Heitor nem foi o protagonista
principal da guerra. Entrou nela por tabela para defender seu irmão Páris e o
reino de Tróia. Seu pai Príamo
inconsolável não sabia o que fazer com seu filho que era um homem distinto e
amado por todos. Mas, pior do que sua morte foi saber que seu corpo permanecia
insepulto junto ao exército inimigo. Seu coração partia de dor por não poder
dar honras fúnebres ao seu filho querido. Após muito sofrimento tomou uma
decisão: Foi sozinho durante à noite no acampamento dos gregos. Aquiles tomou
um grande susto ao ver chegar ali aquele espectro de homem encarquilhado pela
velhice com seus cabelos brancos. Admirou sua coragem. Só podia ser mesmo o pai
de Heitor que cujo corpo ele o mantinha no seu acampamento. A conversa entre os
dois foi algo impressionante. Príamo pediu a Aquiles que imaginasse o
contrário. Que o pai dele estivesse a chorar pelo seu corpo no acampamento
inimigo. Em seguida beijou a mão do guerreiro e suplicou-lhe o corpo de Heitor.
Aquiles cedeu, mas pediu um tempo. Durante a noite preparou, dignamente, o
corpo de Heitor vestiu-o com uma fina túnica, colocou-o sobre o carro e
devolveu-lhe a Príamo. Além disso, prometeu-lhe alguns dias de trégua para que
tivesse tempo de fazer os funerais do filho.
Essa cena é, de fato, impressionante e faz a gente pensar
muita coisa. Até mesmo num tempo de guerras é preciso que prevaleça um mínimo
de ética. A dor de um pai não pode ser ignorada. Assim é que se distingue o verdadeiro
comportamento de um herói. Aquiles soube controlar sua ira e, respeitando, a
coragem de Príamo, devolveu-lhe o corpo de seu filho e fez parar a guerra no
período dos funerais. Príamo, ao beijar a mão do seu inimigo, correndo todos os
riscos mostrou-nos que, acima de qualquer perda ou vitória, o amor paterno deve
prevalecer. A cena é muito comovente e nos ensina muitas coisas. É preciso
separar a figura do rei com a figura de um pai sofredor. Príamo, talvez, não se
perdoaria se deixasse sem sepultura o corpo de seu filho. Naquela cultura um
corpo insepulto não entraria no espaço celeste equivalente ao céu. Então, o
morto seria duplamente condenado. Aquiles sabia disso. Por isso, deu uma trégua
no seu ódio. Naquela noite, sob uma tenda o entendimento e o diálogo prevaleceram
sobre a selvageria da guerra. Uma grande lição para a história!



