Confissão
Sou padre há mais de trinta anos e procuro viver com integridade o meu sacerdócio. Mas, como qualquer um de meus irmãos padres, também cor...
Sou padre há mais de trinta anos e procuro viver com
integridade o meu sacerdócio. Mas, como qualquer um de meus irmãos padres,
também corro alguns riscos. Celebro missas e prego, no rádio, todos os dias.
Mas, corro o risco de falar bem, sobre Deus, sem falar com Deus mesmo. Não
quero ser um profissional do sagrado, mas um padre que ouviu um chamado divino
e, apesar de suas limitações, quer ser disponível para responder a tal chamado.
Chamamos a isso de vocação. Hoje, após trinta anos, sei que, de fato, essa sempre
foi minha vocação pois, nunca me arrependi, nenhum dia sequer, de ter dado o
meu sim a Deus. Muitas vezes, exigimos
isso dos jovens no primeiro ano de formação, quando ele ainda está na fase das
descobertas, enquanto a certeza da vocação só vem, mesmo, com o tempo.
Outro risco que corro é o do piloto automático, ou seja,
fazer tudo, mecanicamente, sem ver o sentido sublime de minhas ações. Para evitar
isso, sempre rezo e peço a Deus que, ao pisar no primeiro degrau do presbitério,
para celebrar, que eu me lembre da graça recebida. Sou padre, mas sei que ninguém
merece uma graça tão grande. Acho sublime ver um irmão celebrando e rezo com
ele procurando ver nele a pessoa de Cristo. Ser padre não é motivo de vaidade,
mas, de temor. Temo não corresponder a tamanha graça de Deus! Quem sente vaidade
em ser padre está no lugar errado e, além do mais, a vaidade, não faz sentido em
lugar algum. Tudo que temos e somos vem de Deus, enquanto não passamos de pó da
terra.
O padre não é, apenas, um ator social ou o representante de uma
instituição milenar. Também não deve ser um artista atraindo para si o foco das
atenções. Antes de tudo, deve ser um homem de Deus e voltado para Deus. Hoje, o que não faltam são caixinhas para
enquadramento das pessoas. Cada um quer encaixar o padre dentro de seus moldes.
Mas, o molde para o padre já está posto: Devemos nos conformar a Cristo! Ele é
a forma e a medida que devemos buscar para nós. Sabemos que, jamais
conseguiremos ter as medidas dele, mas, isso não dispensa o nosso esforço nessa
busca. Como perdoar setenta vezes sete, se mal consigo perdoar uma única pessoa?
As medidas de Cristo devem ser as nossas e, por isso, buscar outros parâmetros,
mesmo os que estão na moda é pura perda de tempo. O tempo passa e leva os
modismos com ele. Os gurus de cada época também passam com suas receitas de
felicidade. Cristo, no entanto, é o mesmo ontem, hoje e sempre.
A busca pelo poder, por status e por fama é outro risco que
todos corremos. Quando a pessoa tem sede de poder ela começa a articular todas
suas ações em vista desse fim. Lembro-me de uma criança que ao ser perguntada
se queria ser padre, respondia que, pretendia mesmo, era ser bispo pois gostava
do “chapéu” que os bispos usavam. Em se tratando de crianças tudo está perdoado.
O problema começa quando isso ocorre com adultos.
Quem se dispõe ao seguimento de Jesus não pode ignorar a
cruz. A cruz significa renúncia, incompreensão, provações... Quem quiser me
seguir tome sua cruz e me siga, disse Jesus. Segui-lo, portanto, não é desfilar
na passarela para arrancar aplausos. Quem só quer aplausos dificilmente saberá
conviver com as vaias no dia em que cair na passarela da vida. Lembre-se: O Tabor
existe, mas não podemos ignorar os Calvários...
Foto: Arquivo pessoal



