O fim do mundo
Se o fato foi verdadeiro, confesso que não sei. Só sei que, em Nova Serrana o chão tremeu. Isso faz uns três anos, quando atendi um sujeit...
Se o fato foi verdadeiro, confesso que não sei. Só sei que, em
Nova Serrana o chão tremeu. Isso faz uns três anos, quando atendi um sujeito da
região que me procurou com os olhos esbugalhados, dizendo que o mundo estaria prestes a acabar. Só não sabia porque o cataclismo final começaria pelo
Cercado, digo, Nova Serrana. Nem eu mesmo soube explicar porque a cidade teria
sido condenada a tal inauguração macabra. Um boato se alastra feito fogo serra
acima. Ninguém sabe onde começou, mas, cada um, trata de enfeitá-lo, como pode, carregando na tinta, enquanto possível.
Sei de outros casos do tipo e com maior gravidade: Num tal
lugarejo, cujo nome não direi, essa conversa surgiu e teve gente que se comportou
de diversas maneiras. Soube de um dito cujo, que desejou fazer uma nova arca do
tipo Noé e só não levou o empreendimento avante por não ter certeza sobre o fim.
Os profetas do fim do mundo nunca estiveram ausentes na
história. Lembro-me, de quando foi eleito o Papa Francisco e alguns, me alertaram
quanto a esse risco. O papa foi eleito e, depois dele, já tivemos nova eleição
e novo papa. Pelo que me consta, o mundo continua rodando do mesmo jeito. No
lugarejo citado, teve gente que comprou velas para iluminar a escuridão;
os mais gulosos fizeram provisões de alimentos e os mais folgados encheram,
logo, os garrafões. Para os endividados
não poderia ter tido uma notícia mais alvissareira, pois, já que o mundo iria
acabar mesmo, não precisariam quitar seus débitos!
Como homem de comunicação agora ando mais atento, caso isso
venha acontecer. Não quero perder o “furo de reportagem”. Vou bolar uma logística
para cobrir todo o evento espalhando repórteres por todo o mundo enquanto ele
existir. Conheço alguns lugares que já são chamados de fim de mundo, nada mais
justo, no entanto, que os correspondentes entrem, ao vivo, desses lugares,
antes que a morte chegue para todos. A reportagem será perfeita em razão do
planejamento. Só não garanto que será vista ou ouvida tendo em vista a
iminência do fim.
Nascido em outras eras, já conheço muitas histórias que são
variações do mesmo tema. Em minha infância, quando pela primeira vez, passou um
avião sobre minha casa, a vizinha veio, aos gritos, dizendo à minha mãe: Dona Lorita,
o mundo vai acabar mesmo? Vamos comer nossas galinhas enquanto é tempo! A
vizinha, pelo jeito, tinha apetite de raposa pois, a primeira coisa a pensar
foi devorar as galinhas. Iria morrer de qualquer jeito mas, pelo menos,
morreria com a barriga cheia.
Na virada do milênio as histórias sobre o fim do mundo se multiplicaram
e ocuparam as manchetes dos jornais. Muitos pensaram que passariam o novo
milênio nas galáxias. O milênio se foi e as dívidas continuaram, para tristeza
geral da galera. Ainda há pouco, vi uma turma aloprada tentando comunicar com extraterrestres,
usando um celular sobre a cabeça. De duas uma: ou esse povo está doido ou o doido sou eu. No meio de tanta doeideira, o mundo segue o seu curso girando na mesma
velocidade como se nós nunca tivéssemos existido. E durma com um barulho
desses!
Imagem de winterseitler por Pixabay



