Quem me navega é o mar

  “Não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar. É ele quem me carrega como nem fosse levar... Meu velho um dia falou, com seu jeito de...

 

“Não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar. É ele quem me carrega como nem fosse levar... Meu velho um dia falou, com seu jeito de avisar: Olha, o mar não tem cabelos, que a gente possa agarrar”.

O trecho acima é da música “Timoreiro” de Herminio Bello de Carvalho, Paulinho da Viola, de 1996. Ela fala do mar como um condutor dos destinos e desatinos humanos. Sobre esse grande mar que não tem cabelos para a gente se agarrar vamos singrando a embarcação da própria existência com a ilusão que somos nós os navegantes.

O mar sempre foi metáfora de algo maior do que nós e nossa capacidade de entender o real. Na mitologia grega era uma divindade, Posséidon que, facilmente, irava-se contra os homens ao sentir-se ofendido. Por causa dele que Odisseu navegou por dez anos antes de retornar à Itaca depois da Guerra de Tróia. Posseidon se magoou com o herói por ele ter vazado o único olho de seu filho Polifemo. Mas, não foi, apenas, Odisseu o castigado por ele ficando preso por sete anos na Ilha Ogígia, da deusa Calipso, “de belas tranças”. Também Menelau ficou retido na Ilha de Faros, na costa egípcia, durante bom tempo só conseguindo retomar o caminho após agarrar Proteu, o velho do mar, outra divindade marinha menor do que Posseidon. O canto IV, da Odisseia de Homero nos deixa a par dessa situação. Menelau ficou retido na ilha sem saber qual divindade ofendera e só saiu de lá graças a ajuda de Idotéia, filha de Proteu. Ao ver o sofrimento de Menelau ensinou-lhe a maneira de agarrar Proteu e arrancar dele os segredos que precisava. Essa atitude contraria a letra da música quando ela diz que o “mar não tem cabelos onde se possa agarrar”. Menelau agarrou Proteu e só o libertou após conseguir o que desejava:

“Ó estrangeiro, expender-te pretendo a verdade inconcussa (disse Idotéia a Menelau), Vem o infalível marinho ancião diariamente a este ponto, divo Proteu imortal, das paragens egípcias, que sabe todos os fundos do mar e é vassalo do divo Posseidon. A ser verdade o que dizem, sou filha gerada por ele(...) Sempre que o sol, no seu curso, do meio do céu se aproxima, sai, nesse ponto, das ondas o velho marinho verídico, ao sopro brando de Zéfiro, oculto na escura madria. Logo que fora se vê, vai deitar-se sob gruta escavada; dorme-lhe em torno, reunidas, depois que das ondas emergem, focas, a prole da bela deidade do mar pardacento, a trescalarem o odor penetrante dos salsos abismos. Logo que a Aurora raiar, levar-te-ei para ali, porque em ordem possas ficar de alcateia. De teus companheiros escolhe três, dos melhores que tenhas nas naves de boa coberta. Todas as tretas funestas pretendo contar-te do velho: Logo de início, há de às focas revista passar e contá-las; quando, porém, tiver todas em grupos de cinco contado, deita-se entre elas, tal como o pastor entre o fato de ovelhas. Logo que o velho, assim, virdes dormindo deitado na terra, fique ao cuidado de todos do máximo esforço valer-se, para ali mesmo detê-lo, conquanto procure escapar-vos...” (Odisseia, Canto IV – 383 – 410).

Foi dessa maneira que Menelau conseguiu agarrar Proteu, o velho do mar, e obter dele as informações desejadas. Soube do paradeiro de Odisseu e dos outros heróis que lutaram na Guerra de Tróia; aprendeu a fazer, corretamente, os sacrifícios que agradavam aos deuses e assim pode retomar o caminho de volta para casa. Para obter esses segredos contou com a ajuda de Idotéia. Há sempre alguém que nos ajuda a desvendar as esfinges que aparecem em nossas vidas. No oceano da existência não existem estradas demarcadas. Cada um tem que descobrir os seus caminhos e nesse esforço às vezes, somos aprisionados por forças que não conhecemos. Os abismos que nos ameaçam nem sempre estão fora de nós, mas dentro de nós mesmos. Você consegue encará-los? Quando esses abismos nos dominam nosso barco navega à deriva. Não seja escravo dos Proteus, tome os remos de suas mãos e siga seu caminho! Caso contrário, permanecerá ao sabor das ondas e será navegado pelo próprio mar sem domínio de sua embarcação. Pense nisso!

Imagem gerada por IA.

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