Um morto que suplica pelo próprio funeral
Existem amizades tão verdadeiras e profundas que nem a morte consegue separá-las. Na Ilíada, livro atribuído a Homero, temos algo assim. T...
Existem amizades tão verdadeiras e profundas que nem a morte
consegue separá-las. Na Ilíada, livro atribuído a Homero, temos algo assim.
Trata-se da amizade entre Aquiles e Pátroclo dois soldados gregos que lutaram
contra os troianos. Aquiles não queria mais lutar contra os troianos mesmo
sendo um dos soldados mais valiosos do exército grego. Pátroclo, seu amigo
vestiu suas roupas e foi para a guerra. Até as roupas de Aquiles punham medo
nos adversários. Acontece que Pátroclo não tinha a mesma destreza de Aquiles e
acabou sendo morto por Heitor, filho de Príamo, o rei de Tróia. Mas, uma pessoa
querida nunca morre sozinha, pois, quem o amam morrem um pouco com ele. O luto
de Aquiles foi terrível: parou de comer, beber e tomar banho até que vingasse o
amigo antes de sepultá-lo.
Certo dia, vencido pelo cansaço Aquiles adormeceu na praia.
Em sonho Pátroclo lhe apareceu pedido que ele fizesse o seu próprio funeral.
Veja o texto:
“Deita-se o claro Pelida na praia do mar sonoroso, em lugar
limpo, onde as ondas espúmeas na areia se quebram, a suspirar fundamente,
cercado por muitos Mirmídones. E quando o plácido sono o cerceou, aliviando-lhe
as dores, pois em extremo cansados os membros donosos sentia, de perseguir o
alto Heitor ao redor das muralhas de Tróia, aproximou-se lhe o espectro do
mísero Pátroclo, ao morto em tudo igual, na estatura gigante, nos fúlgidos
olhos e no agradável da voz; iguais vestes, também, tinha o espectro. Fica-lhe junto à cabeça e lhe diz as
seguintes palavras: Dormes, Aquiles, o amigo esquecendo? Zeloso eras antes,
quando me achava com vida; ora, morte, de mim te descuidas. Com toda a pressa
sepulta-me, para que no Hades ingresse, pois a imagens cansadas dos vivos, as
almas, enxotam, não permitindo que o rio atravesse para a elas ajuntar-me. Por
isso, vago defronte das portas amplíssimas do Hades. Dá-me tua mão; é chorando
que o peço; não mais à tua frente conseguirei retornar, quando o fogo me houver
consumido, nem será dado jamais, a departe dos outros Mirmídones, aconselharmo-nos
tal como em vida soíamos , visto já ter de mim se apossado o destino que eu
trouxe do berço. É teu destino também, nobre Aquiles, semelho aos eternos,
junto às muralhas de Tróia opulenta a existência perderes. Ora desejo fazer-te
um pedido, e bem sei que me atendes. Não deixe seres mui longe dos meus os teus
ossos depostos, mas junto deles, que junto crescemos em vosso palácio...”
(Ilíada XXII, 59 – 84).
Após essa visão, Aquiles tentou abraçar o amigo sem nada
poder tocar e o viu desaparecer feito neblina...
Quando a dor da perda é muito grande dificilmente a vida dos
que ficaram permanece como antes. Conheci uma mãe que, após o sumiço inexplicável
do filho, ficou praticamente dois anos sem dormir direito. O caso real se
parece ao caso da história pois, o moço desaparecido não deu à mãe o direito ao
velório. Isso costuma ser ainda pior do que a morte. Certo dia, apareceu-lhe,
em sonho e revelou-lhe, detalhes sobre sua morte. Seguindo as pistas do sonho,
no dia seguinte, ela chegou ao lugar onde ele havia sido assassinado, numa área
de mato, próximo à cidade vizinha. Não teve dúvidas ao ver no local os tênis
que o filho usava quando saíra de casa. As respostas que ela não encontrou
entre os vivos acabou encontrando entre os mortos. Essa foi a única certeza que
teve da morte de seu filho que sumiu de casa sem deixar pistas. Deus sabe o que
faz e, por isso, deu um jeito de aliviar um pouco o sofrimento daquela mãe.
Imagem: Gerada por IA (Gemini)



