O machado e o tronco
Houve um tempo em que minhas mãos empunhavam o machado. Golpe após golpe, eu via gigantes tombarem. A madeira estremecia. As folhas silenc...
Houve um tempo
em que minhas mãos
empunhavam o machado.
Golpe após golpe,
eu via gigantes tombarem.
A madeira estremecia.
As folhas silenciavam.
E o chão recebia,
sem reclamar,
mais um corpo vencido.
Naquele tempo,
eu acreditava que a força
era eterna.
Que o aço jamais perderia o fio.
Que meus braços desconheciam o cansaço.
Mas a vida...
A vida gosta
de trocar os papéis
sem pedir licença.
Um dia,
percebi que já não era
quem levantava o machado.
Eu era o tronco.
As marcas que antes eu deixava,
agora habitavam em mim.
Cada golpe recebido abriu uma cicatriz.
Cada perda retirou um pedaço da casca.
Cada despedida expôs um pouco mais
da madeira que existia por dentro.
Foi então que compreendi
o engano dos homens.
Chamamos de inútil
o tronco caído.
Mas esquecemos
que foi ele quem sustentou folhas,
abrigou pássaros,
desafiou tempestades e fez sombra
para quem jamais soube seu nome.
A árvore caída não perdeu
sua grandeza.
Apenas terminou
sua primeira missão.
Talvez aconteça o mesmo
conosco.
Enquanto somos fortes,
derrubamos obstáculos.
Abrimos caminhos.
Construímos.
Protegemos.
Mas chega o dia em que o corpo
já não acompanha a vontade.
As mãos tremem.
Os passos encurtam.
O tempo afia seu próprio machado.
E então entendemos que ninguém
permanece lenhador para sempre.
Todos,
mais cedo ou mais tarde,
conheceremos o silêncio do tronco.
Mas há uma diferença
entre a madeira seca
e a madeira nobre.
A seca apodrece.
A nobre transforma-se.
Pode virar mesa onde uma família
partilha o pão.
Pode tornar-se ponte
para que outros atravessem.
Pode aquecer quem sente frio.
Pode sustentar um teto.
Ou simplesmente
continuar alimentando
a terra que um dia
lhe deu raízes.
Por isso,
não tema quando a vida
trocar o machado pelas cicatrizes.
Porque o valor de uma árvore
nunca esteve na força
com que permaneceu em pé,
mas em tudo o que foi capaz
de oferecer, mesmo depois
de cair.
Texto : Lucas Bessa
Imagem: Gerada por IA (Gemini)
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