Vou Dar de beber à dor

  “Vou dar de beber à dor” (Casa da Mariquinhas) é o refrão de uma música portuguesa de 1968, imortalizada na voz de Amália Rodrigues. .....

 

“Vou dar de beber à dor” (Casa da Mariquinhas) é o refrão de uma música portuguesa de 1968, imortalizada na voz de Amália Rodrigues.

...Recordações do calor/E das saudades do gosto que eu vou procurar esquecer /Numas ginjinhas*/ Pois dar de beber à dor é o melhor/ Já dizia Mariquinhas...

“Mariquinhas é uma figura nostálgica que simboliza o consolo e a resiliência. A letra relata o lamento do narrador ao passar pela antiga casa da Mariquinhas, um lugar que antes era animado—onde havia petiscos, música e guitarras—mas que foi alterado pelo tempo. O verso resume que, para afastar a saudade e as desilusões da vida, o melhor remédio é "dar de beber à dor" (encontrando conforto, por exemplo, nuns cálices de ginja)”

Entre os muitos relatos interessantes da Odisseia, de Homero, cito um que, por associação, me fez lembrar da música citada. Trata-se da atitude de Helena, esposa de Menelau que colocou essência (fármaco) na bebida para mudar o clima de tristeza em sua casa. A cena também poderia ser associada ao papel de Maria que quebrou perfumes aos pés de Jesus exorcizando a tristeza reinante no ambiente.

A cena da Odisseia está registrada no IV Canto e o contexto é o seguinte: Telêmaco, filho de Odisseu, tendo sua casa invadida pelos pretendentes de sua mãe e orientado por Atena, sai pelo mar, em busca do pai do qual não tinha notícias. Após vinte anos ausente de casa, todos pensavam que ele estivesse morto. Muitos cobiçavam a suposta viúva juntamente com seu reino. Telêmaco, numa busca desesperada pelo pai, dirige-se à casa de Nestor, rei de Pilos onde não conseguiu nenhuma informações sobre o paradeiro do pai mas, conseguiu apoio para dirigir-se até Esparta na companhia de Psístrato, filho de Nestor.

Em Esparta foi bem acolhido pelo rei Menelau e sua esposa Helena, conforme o costume dos gregos que cultivavam a “xênia”, boa hospitalidade. Após a festa da acolhida Telêmaco se apresentou ao rei, no dia seguinte e falou de seu propósito. Helena, no entanto, já havia percebido a grande semelhança de Telêmaco com seu pai Odisseu. Quando o nome de Odisseu foi mencionado Telêmaco começou a chorar. Na verdade, nem chegou a conhecer bem aquele homem, tão famoso, desaparecido após a Guerra de Tróia. Percebendo o clima de tristeza Helena adicionou uma substância ao vinho para que todos pudessem se alegrar exorcizando as más lembranças:

“Então, Helena teve uma ideia para aliviar o sofrimento que se abatera sobre os que ali estavam: misturou ao vinho uma substância calmante, capaz de afastar a dor, a raiva e as lembranças mais amargas. Quem a bebesse não conseguiria chorar durante todo o dia, mesmo diante da pior das tragédias. Logo, voltaram a se distrair com conversas mais alegres. Essa droga poderosa vinha do Egito, terra conhecida por seus remédios — alguns curativos, outros altamente perigosos. Depois que as taças foram servidas, a rainha Helena falou: — Zeus dá tanto alegrias quanto sofrimentos aos homens e, nesse momento, é melhor aproveitarmos o banquete”.

Como toda mulher Helena, Maria e a tal Mariquinhas, conseguiram um grande feito: Expulsar a dor e o clima de tristeza reinante. O que poderia ser fuga talvez, fosse um alivio provisório, um refrigério diante de uma grande ameaça. Às vezes, a realidade é dura demais para ser encarada à frio. Precisamos de calmantes para suportar o peso de algumas dores. O que fazer diante de uma mãe que acabou de perder o filho num acidente? Ou diante de um filho à procura do pai por vinte anos? Maria, quebrou um perfume, Helena “adoçou” a bebida, e a Mariquinhas deu de beber à dor. E você, o que você faria para aliviar, ainda que provisoriamente, a dor de alguém? Quebraria um perfume, buscaria solução em Deus ou, simplesmente, daria de beber à dor? Pense nisso! 

 

·       * Ginja (ou ginjinha) é um famoso licor português feito a partir da maceração da fruta homônima, uma espécie de cereja azeda, em aguardente e açúcar. Aveludada e de cor rubi, é consumida como aperitivo ou digestivo. É tradição servi-la pura ou "com elas" (com a fruta dentro da garrafa/copo), frequentemente dentro de pequenos copos de chocolate comestíveis.

I    Imagem gerada por IA. 


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  1. Dar de beber à dor, à tristeza afastam-nas por instantes, talvez o suficiente para amenizá-las e trazer alguma solução...
    Parabéns pelo texto e por nos apresentar personagens da mitologia .

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  2. PADRE, de longe o suporte é Deus sempre, para aliviar qualquer dor, mas digo que um bom vinho em alguns momentos para descontração cai bem sim.
    Tudo na vida tem que ter equilíbrio né, e beber moderadamente é um desses casos.
    Que fado bonitinho! Gostei.

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