Martírio de São João Batista
No dia em que meditamos sobre o martírio de São João Batista (29 de agosto), o Evangelho proposto pela liturgia é o texto de São Marcos(Mc 6...
No dia em que meditamos sobre o martírio de São João Batista (29 de agosto), o Evangelho proposto pela liturgia é o texto de São Marcos(Mc 6, 17-29). Refletir e comentar sobre a figura de João Batista é sempre bom. Ele é o único santo que é celebrado no dia do nascimento (24/06) e da morte.
João foi aquele que abriu o caminho para Jesus. Mas, não foi fácil abrir um caminho para a verdade num mundo recheado de mentiras. João não era a luz, mas andava muito perto dela. Por isso, estava sempre iluminado. Herodes, ao que parece, estava longe da claridade. Para comemorar seu aniversário decretou a morte de um prisioneiro inocente, a pretexto de “honrar a palavra dada”. Mas, será que Herodes entendia bem o que fosse honradez? A tristeza de Herodes deveria se assemelhar à do crocodilo, pois dizem que esse chora, enquanto engole a presa...
Herodes é um personagem curioso. O Evangelho citado mostra-o meio confuso quando ouviu falar de Jesus. Até parece que estava com "dor de consciência" pela morte de João Batista. Mas, consciência era o que ele não tinha. Depois de calar João Batista seria querer demais que ele desse ouvidos a Jesus. Pessoas como Herodes só tem ouvidos para o que lhes interessa. Sua figura, no entanto, parece representar o adultério do próprio povo de Israel que em vez de dar ouvidos ao esposo que é Cristo, prefere não escutá-lo. Ouvir um profeta nunca foi fácil nem naquele tempo e nem hoje. O profeta às vezes, navega contra a correnteza. Não sendo "Maria vai com as outras", sua voz incomoda. Para não serem incomodados, alguns preferem amordaçá-los.
João Batista morreu para não calar a verdade. Mas, a Verdade é Jesus. Então, antecipadamente, João morreu por Jesus. Deu tudo de si para Cristo sem nada exigir. Não exigiu nem mesmo a presença dele nas horas de provação. Sabia que o seu papel não era de "roubar a cena" mas, preparar os caminhos para que Jesus pudesse entrar em cena.
Enquanto João estava preso e teve decretada sua sentença de morte Jesus estava ausente. Ele não deveria estar por perto e defender o amigo? Em primeiro lugar, precisamos compreender que os planos de Deus são bem diferentes dos nossos. Depois é preciso afastar a ideia de um messias poderoso que viesse resolver todos os problemas humanos. Jesus é manso e humilde. Ele também, mais tarde, seria vítima da ambição e vaidade dos grandes de seu tempo. E quando tudo parecia acabado numa sentença de cruz ele ressurge vivo, outra vez, no terceiro dia. A ressurreição foi a vitória sobre tudo aquilo que parecia fracasso e silêncio de Deus. Isso me faz pensar nos misteriosos silêncios de Deus que, muitas vezes parece não escutar nossos lamentos.
Para Herodes, ou pessoas que reduzem o sentido da vida aos horizontes da história, tudo acaba com a morte. Mas, para Cristo e seus seguidores a morte não passa de um nascimento, uma passagem para uma vida em plenitude. Por isso, a Igreja chama a festa do martírio de João Batista de “Dia natalis”, ou seja, o dia do nascimento. Incorporado a Cristo, por antecipação, João se associa à sua morte, completando assim, em sua carne, "o que faltava à paixão de Cristo". Daí se entende o aparente silêncio de Deus diante dos dramas humanos. A vida, numa perspectiva de fé, ultrapassa em muito o que vemos com o alcance de nosso olhar.
João Batista é um modelo de vida e de fé para todos os tempos. Mas, não é muito fácil seguir suas pegadas. Certamente, nenhum de nós terá que enfrentar o martírio. Mas, teremos que enfrentar a indiferença e o ateísmo prático de nossos dias. Isso gera dor, gozações ou críticas, às vezes, dentro de nossas casas! Diante do exposto, vale a pena o questionamento: Qual o preço estou disposto a pagar pela minha fé? Como me posiciono diante da verdade? Procuro ser verdadeiro no relacionamento com as pessoas que me cercam? O meu jeito de agir e encaminhar as coisas me aproxima mais da luz de Cristo ou das trevas de Herodes?
Que São João Batista nos abençoe!
Imagem gerada por IA (Gemini)




Excelente reflexão, Padre Gabriel! O senhor conseguiu nos mostrar como o exemplo de São João Batista continua tão atual. A comparação entre a falsidade de Herodes e a coragem de João em defender a Verdade nos faz pensar de verdade sobre como estamos vivendo a nossa fé no dia a dia. Que possamos ter essa mesma firmeza diante das pressões do mundo. Parabéns pelo texto iluminado!
ResponderExcluir