Um "Tapete Vermelho"
"Ainda bem que estou vivo" , dizia recentemente, um professor que é meu amigo. "Acabo de sair de uma aula no ensino médio, e...
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"Ainda bem que estou vivo", dizia recentemente, um professor que é meu amigo. "Acabo de sair de uma aula no ensino médio, estou exausto", completou. A conversa com esse professor me fez pensar muita coisa sobre nossa educação, ou falta dela...
"Para compreender a situação dos professores é preciso enfrentar o que nós enfrentamos", disse-me, ao longo de nossa conversa. Acabei concordando com ele pois não dá para falar de educação a partir dos gabinetes. Quem está empunhando a bandeira e ocupando a linha de frente nessa área corre o risco de ser agredido a qualquer momento. Nunca vi tanta falta de educação e de limites! Moro perto a uma escola pública e posso testemunhar isso. Minha porta se assemelha a um lixão de tanta sujeira que os alunos deixam quando saem da escola. O governo fala muito bonito sobre a educação, mas, acho que ele precisa "enfrentar a onça" para depois se pronunciar melhor sobre o tema.
Mas, não é sobre educação escolar que me propus a falar nesse texto. Quero falar de outra realidade que também educa: O Cinema! . Não vivemos somente de pão. Jesus foi muito feliz quando disse isso, pois vivemos também de cultura e de arte. Precisamos de algo, que sirva para nos edificar por dentro e nos elevar. Nesse sentido, o teatro, a música e o cinema também podem nos educar e costumam cumprir muito bem essa missão.
O filme sobre o qual vou comentar já é antigo mas, só recentemente pude vê-lo. Trata-se de "Tapete Vermelho", uma comédia dramática de 2006, que mostra uma família do interior de Minas, percorrendo meio mundo em busca de um cinema para assistir a um filme de Mazzaroppi. A viagem constitui uma verdadeira odisseia onde acontece de tudo. "Quinzinho," o personagem central do filme, toca viola, enfrenta seus medos e acaba se envolvendo, sem querer, com a polícia, ao visitar um acampamento de sem-terras. Seu maior sonho era levar o filho para ver um filme de Mazzaroppi, mas sua decepção começou ao perceber que a maioria dos cinemas estava fechada ou transformou-se em igrejas pentecostais. Numa dessas Igrejas, ele viu abandonados, os rolos de filmes de seu ídolo preferido. Recolheu-os para si, mas só conseguiu vê-los após um ato de protesto na porta do cinema.
O filme lembra o estilo do próprio Mazzaroppi. Sua simplicidade é encantadora! O universo de Quinzinho é povoado das mesmas superstições que ainda habitam a imaginação de quem mora no interior de Minas Gerais. Três cenas me fizeram lembrar as estórias de minha infância:
Quando criança ouvia falar de uma "cobra mandada", que mamava no seio da mãe, enquanto essa dormia. Ao mesmo tempo, a cobra colocava a ponta do rabo na boca da criança. Esta acabava adoecendo e morria de fome, sem que a mãe descobrisse a causa.
Uma segunda passagem, também me lembrou algo conhecido. Trata-se de uma simpatia para aprender a tocar violão. Ela consiste em passar por entre os dedos uma cobra coral. Feita a simpatia, ao violeiro restavam duas opções: morrer ou aprender a tocar viola.
Nem me recordo de quantas vezes ouvi uma outra estória de assombração, onde aparecia uma porca acompanhada de pintinhos. Essa cena estranha, antecipava o pacto que alguém fazia com o diabo na encruzilhada durante uma noite de lua cheia. Por essas razões eu me senti dentro do filme. Parece que ele contava um pouco de minha história.
"Tapete Vermelho" é um filme bonito porque fala de nós e mostra-nos, um lado quase esquecido de nossa cultura. Minas Gerais carrega muitas narrativas que precisam ser preservadas. Que o diga Guimarães Rosa, outro artista escritor que registra o melhor de nossos "causos". Quinzinho merece pisar num tapete vermelho para ver seu filme preferido ainda que ninguém mais fale de Mazzaroppi. Os "enlatados" americanos invadiram nosso cinema e para "fabricar" nosso gosto estético a indústria gasta rios de dinheiro! Como é difícil descolonizar nossas consciências!
Senhor tende piedade de nós!!!



