O rei da torre
Há um castelo nesta cidade. Não tem ponte levadiça, nem dragões nas ameias, nem soldados guardando a porta. Tem uma torre. E no alto da to...
Há um castelo nesta cidade.
Não tem ponte levadiça,
nem dragões nas ameias,
nem soldados guardando a porta.
Tem uma torre.
E no alto da torre
mora um rei.
Não sei se ele usa coroa.
Talvez use apenas os cabelos longos ao vento.
O olhar dos que aprenderam a ver
o mundo de cima.
Da torre, ele vê as casas,
as ruas que adormecem,
as portas que ainda esperam,
os homens que passam
carregando seus dias.
E vê a lua.
Então, todas as noites,
desde todos os tempos,
o rei conversa com ela.
Conta-lhe das guerras antigas,
dos amores que partiram,
das lágrimas escondidas,
das mãos que se desencontraram,
dos sonhos que ficaram
sem lugar para morar.
A lua escuta.
E o rei, lá do alto,
como quem conhece
o começo e o fim das coisas,
diz baixinho:
— Lua, diga ao mundo
que já é chegada a hora.
A hora de baixar as armas.
De abrir as janelas.
De perdoar o que for possível.
De recolher os gritos
e devolver aos homens
o direito de ouvir o silêncio.
A hora de a noite
não ser mais medo.
A hora de a torre
não precisar vigiar ninguém.
E a lua, redonda e inteira,
passa sobre o castelo
como uma palavra de luz.
O rei continua lá.
Olhando o mundo.
Esperando que, enfim,
alguém lá embaixo
escute o que ele diz
há tantos séculos:
é chegada a hora da paz.
Ana Cláudia SSaldanha
Foto: Pe. Gabriel - Matriz São José, em S. J. da Varginha, sob a lua cheia




E a foto completou o entendimento das emoções transmitida pela poesia. Gostei
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