Eu-livro

  Ainda era criança quando descobri um mundo paralelo ao meu. Isso me aconteceu quando aprendi a juntar as letras e só-letrar as palavras. P...

 


Ainda era criança quando descobri um mundo paralelo ao meu. Isso me aconteceu quando aprendi a juntar as letras e só-letrar as palavras. Para ser bem sincero, nem me lembro quem foi o responsável por isso. Em grande parte, fui eu mesmo. Não quero desprezar o belo trabalho de quem me alfa-betizou, mas, o meu encanto por esse mundo que as letras me revelavam foi, sem dúvida, o grande responsável por tal descoberta.

Minha família não tinha muita condição de me ajudar a gostar dos livros. Minha mãe era analfabeta e nunca teve oportunidade de frequentar a escola. Repetia uma fala de meu avô paterno que “mulher só aprendia a ler e escrever para escrever cartinhas para os namorados”. Meu avô, certamente, tinha consciência dessa capacidade de encantamento dos livros e, temendo o pior, ou o melhor, conforme o ponto de vista, proibiu o acesso das filhas a esse universo mágico. Meu pai lia mal e, apesar da pouca escolaridade, sabia fazer contas melhor do que eu, que nunca fui bom nisso. Nascido nesse ambiente como fui enfeitiçado pelo gosto da leitura? Nem eu sei, mas, acho que os livros é que foram me conquistando. Em minha casa não havia energia elétrica e eu lia à luz das lamparinas. E como lia! Minha redenção foi a biblioteca pública em Araújos, onde passei a ser assíduo frequentador e minha fichinha tinha que ser trocada pois, rapidamente, ficava cheia. Eu não tinha livros, mas tinha acesso garantido a eles, graças à biblioteca pública.

Aprendi a ler caminhando e até hoje faço isso — o que não é tão fácil hoje em dia para quem tem mais de sessenta anos! Para estudar na cidade eu tinha que andar muito e os caminhos não passavam de trilhas tortuosas. Aprendi a subir e descer os morros lendo meus livros e assim aproveitava o tempo gasto na viagem. Eram duas viagens simultâneas pois, enquanto caminhava dava asas à imaginação. Li tudo o que pude e até hoje me lembro de boa parte dos meus autores prediletos. Mas, sempre procurei variar os estilos, coisa que até hoje faço para não me habituar apenas com um tipo de literatura.

Hoje, graças a Deus, posso comprar os livros de meu interesse e o faço quase todos os meses. Considero isso um bom investimento, pois, se o livro for bom, ele vai acabar sendo devorado por mim mais cedo ou mais tarde. Não gosto de emprestar os meus livros por causa das anotações que faço em suas margens. Isso me facilita muito quando tenho que recorrer a eles. Sempre carrego alguns livros comigo no banco do carro e faço ameaças de cinco anos no purgatório se um carona se assentar sobre eles. Eu não me incomodo de dar carona a uma pessoa conhecida, mas, me causa profunda irritação quando alguém despreza o corpo sobre o livro. Sou capaz de ouvi-lo gemendo sob a indiferença de quem não o respeita.

Tenho muitos livros na versão Kindle e também faço uso desse recurso. Mas, não é a mesma coisa. Eu gosto de folhear o livro, cheirá-lo e abraçá-lo. Cada um tem suas manias e eu também me dou a esse direito. Fico entristecido quando vejo um bom livro abandonado ou uma biblioteca descuidada. Conforme lhe disse, tenho uma dívida com a biblioteca pública e não posso me esquecer dessa dívida.

O mundo paralelo que descobri, ainda criança, continua a ser frequentado por mim. Ele ocupa boa parte de meu tempo. Graças a esse mundo que me foi descortinado pelos livros, posso viajar no tempo e me inspirar e emocionar. Talvez, por causa dessa descoberta fantástica, eu nunca tenha experimentado um sentimento cruel chamado solidão. Um bom livro tem o poder de nos transportar. É um grande companheiro que custa pouco e pode lhe acompanhar a vida toda. 

Pense nisso 

Foto: Arquivo pessoal

 

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  1. Não consigo parar e ler , não sei porque. talvez nunca tenha feito disto um hábito mas sei a importância da leitura, abre mentes. nós faz viajar e nos dá conhecimentos. Acho que não tenho mais tempo para formar este hábito, mas invejo quem tem está dedicação, são pessoas sábias. Estou até criando este hábito porque gosto de ler o que o senhor escreve. Obrigada por despertar em. mim este prazer. Foi no fundo do baú na música, Caetano estava novinho. Obrigada por me proporcionar estes momentos de conhecimento.

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  2. Padre, este texto biografico, é muito verdadeiro com certeza e digo que o resultado deste gosto pelos livros, dão muitos bons resultados para todos que o conhecemos.
    Digo que é sorte nossa poder ouvi-lo ja que a bagagem cultural adquirida com suas leituras, tem resultado em muitas boas homilias, e nas comunicações variadas, como o café da manhã diariamente, tenha certeza, tem nos ajudado muito.
    Faço votos que continue com este que poderia dizer Rob, e compartilhando a cultura adquirida. Antecipo meus agradecimentos.
    Gostei da musica ao final.

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  3. Extremamente necessário esse texto, ler te faz adquirir conhecimento e ninguém tira isso de você, quando eu era criança gostava de ler história em quadrinhos, e isso me fez gostar de leitura, sou viciada em ler, gosto de livros..
    Hj a população está sendo sugada por uma era onde tudo é fácil, e isso faz com que o cérebro seja preguiçoso, muitas pessoas não sabem interpretar..
    Tem uma frase de Emília Clarke que diz: "Nunca discuta com alguém cuja televisão seja maior do que a sua biblioteca" ..

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