Seu Badu da Costa e Silva
Ele picotava a botina na altura dos dedos e dizia que era pra a respiração dos calos. A botina chiava de tão nova, mas os dedos dos pés co...
Ele picotava a botina na altura dos dedos e dizia que era pra
a respiração dos calos. A botina chiava de tão nova, mas os dedos dos pés com
os narizes de fora poderiam respirar o ar livre. Seu Badu era assim, igual a
ele só ele mesmo! Sr. Balduíno da Costa
e Silva, Badu para os íntimos, trabalhava de sol a sol na fazenda do prefeito.
Cuidava de tudo como se tudo lhe pertencesse e viveu na fazenda até ser colhido
pela morte. Banho, só de vez em quando. Alegava que muitos banhos estragavam a
pele e causavam resfriados. Andava sempre acompanhado com um grupo de cachorros
magros e assanhados. Um deles avançou, certo dia, num pedaço de toucinho que
Firmina colocara ao sol para ganhar sabor. Se praga de vizinho matasse Lobão, esse
era o nome da fera, teria morrido ali mesmo. Mas, qual nada! Ele não só não
morreu como ganhou forças para limpar os ovos da carijó de Dona Firmina que
fizera ninho no canto do paiol. Naquele dia fiquei sabendo que ovos frescos e
torresminhos fazem bem ao paladar dos cachorros. Desde muito cedo compreendi
algo sobre o paladar da bicharada. Aprendi que gambá aprecia uma caninha e que
galinha não faz dieta.
Disseram à minha mãe, certa vez, o que era bom para matar um
gambá, frequentador noturno de nosso galinheiro. Naquele tempo não havia
consciência ambiental que se tem hoje. A receita dizia que a tocaia deveria ser
feita com boa cachaça, coisa que não parecia impossível, pois uma branquinha se
deixa encontrar em qualquer época e lugar. Minha mãe agiu com requintes de crueldade,
encheu até a borda uma lata de goiabada com uma pinga da boa e deixou, como se
por descuido, um ovo fresco ao lado da vasilha. No outro dia, bem cedo,
dirigiu-se ao galinheiro espumando ódio e empunhando um cabo de vassoura. Seria
uma limpeza! - pensou consigo. Limpeza, que nada! O bicho bebeu toda a cachaça
comeu o ovo e só não lhe deixou um agradecimento, por escrito, porque não sabia
escrever. Mas, voltemos ao caso de Seu Badu.
O que passo a narrar agora sobre Seu Badu eu mesmo presenciei com esses olhos que a terra há de comer. Havia na beira da estrada uma caixa de marimbondos desses miudinhos que atacam até as sombras. Essa maldição havia recaído sobre os cachorros de Seu Badu e, por causa disso, ele agiu rápido. Esfregou a ponta do cabo da foice em ambas as axilas e, em seguida, posicionou-o próximo à entrada dos marimbondos. Aquilo provocou uma convulsão social na vida dos insetos. Caindo uns sobre os outros, em questão de minutos, abandonaram a moradia que acabou virando farelo sob as botinas de Seu Badu. Naquele dia aprendi uma nova lição: às vezes, pode ser vantajoso ser inimigo dos banhos! E a esposa de Seu Badu, como conseguia dormir com ele? - pode interrogar o leitor curioso. A resposta é mais simples do que parece: Ela também era inimiga do chuveiro! Penso que ambos entenderam errado a advertência: O Ministério da Saúde adverte: Banho faz mal à saúde! Será que o governo diria uma coisa dessa? Vai saber! Cada um ouve o que lhe interessa...
Imagem de Mario Hernandez por Pixabay




Amei a crônica, parabéns 👏👏👏
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