Viva Nossa Senhora do Rosário!
Aprendi muito cedo a rezar o terço. Conforme narrei em outras ocasiões, minha família não tinha muita frequência à Igreja. O motivo er...
Aprendi muito cedo a rezar o terço. Conforme narrei
em outras ocasiões, minha família não tinha muita frequência à Igreja. O motivo
era simples: A distância que nos separava da paróquia! Minha fé começou na
família e foi alimentada de forma popular nas devoções do povo. Entre essas
devoções posso enumerar:
As rezas do terço, principalmente, em maio;
As festas de junho, quando também se rezava o terço;
A devoção à Santa Cruz;
A participação nas Folias de Reis e cumprimento de promessas.
Como se pode perceber, mesmo longe da vida paroquial pude
viver a fé nos moldes populares. A hora do terço era muito sagrada e todos
faziam silêncio. Às vezes, cantavam os mistérios e alguma música em latim. A
gente não entendia nada daquilo mas achava bonito. Meus pais, apesar da
simplicidade, nunca se deitaram sem rezar o terço. Foi nesse ambiente que
aprendi a gostar de Nossa Senhora nos muitos títulos que ela recebe. Entre
tantos títulos aprendi a invoca-la como “Rainha do Santo Rosário”. Mas, como
nasceu essa devoção à Virgem do Rosário?
A devoção a Nossa
Senhora do Rosário tem uma origem rica que une a tradição popular da Baixa
Idade Média, o dinamismo da Ordem dos Dominicanos e a evolução das práticas de
oração do povo cristão.
1. As Raízes Medievais: O "Saltério dos Leigos"
Nos mosteiros
medievais, os monges recitavam diariamente o Saltério, composto pelos 150
Salmos bíblicos. Como a maioria dos fiéis leigos não sabia ler nem dominava o
latim, surgiu a prática de substituir os 150 salmos por 150 orações conhecidas
(inicialmente Pais-nossos e, mais tarde, a saudação angélica do Ave-Maria).
Para contar essas orações, utilizavam-se cordões com nós ou grãos enfiados em
barbantes, chamados de "contas". Esse costume ficou conhecido como o
Saltério de Maria ou Saltério Angélico.
A Aparição a São Domingos de Gusmão (1214)
O grande impulso para a
devoção sob o título de Nossa Senhora do Rosário ocorreu no início do século
XIII.
Segundo a tradição
católica, em 1214, o espanhol São Domingos de Gusmão, fundador da Ordem dos
Pregadores (Dominicanos), enfrentava imensas dificuldades para converter os
adeptos da heresia albigense no sul da França. Refugiado na floresta de
Prouille para jejuar e rezar, São Domingos teve uma visão da Virgem Maria. Na
ocasião, Nossa Senhora entregou-lhe o Rosário e instruiu-o a usá-lo como uma
"arma espiritual" de pregação e conversão, aliando a recitação das
Ave-Marias à meditação sobre os mistérios da vida, morte e ressurreição de
Jesus Cristo.
3. A Estruturação do Rosário e as Confrarias
Entre os séculos XV e
XVI, a devoção ganhou a forma estruturada como a conhecemos hoje.
O Beato Alan de La
Roche (membro da Ordem Dominicana) fundou a primeira Confraria do Rosário em
1470, separando as dezenas em grupos e incentivando a meditação bíblica
associada às orações.
A palavra Rosário
deriva de rosa: cada Ave-Maria rezada era simbolicamente oferecida à Virgem
Maria como uma rosa, formando uma "coroa de rosas".
4. A Batalha de Lepanto e o Reconhecimento Papal (1571)
O evento histórico que
consolidou e espalhou universalmente a festa litúrgica de Nossa Senhora do
Rosário ocorreu no século XVI:
Em 7 de outubro de
1571, a Liga Santa (coalizão de nações cristãs) enfrentou a frota do Império
Otomano na Batalha de Lepanto. Diante da ameaça de invasão da Europa ocidental,
o Papa Pio V (também dominicano) convocou todos os fiéis a rezarem o Rosário em
procissão pela vitória.Com a surpreendente vitória militar das forças cristãs,
o Papa atribuiu a graça à intercessão de Maria e instituiu oficialmente a festa
de Nossa Senhora da Vitória, posteriormente renomeada para Nossa Senhora do
Rosário.
5. A Expansão no Brasil e a Tradição dos Rosários
No Brasil e na América
Latina, a devoção a Nossa Senhora do Rosário assumiu contornos culturais únicos
a partir do período colonial. Propagada pelos missionários dominicanos e
jesuítas, a devoção encontrou forte identificação entre as populações
escravizadas e libertas de origem africana, dando origem às Irmandades de Nossa
Senhora do Rosário dos Homens Pretos e à rica manifestação do Congado e das
Congadas, onde a fé católica se entrelaça com a ancestralidade e a resistência cultural
(1)
Hoje, depois e padre, na longa convivência, com os congadeiros,
minha devoção à Virgem do Rosário, aumentou ainda mais e louvo a Deus por isso.
Todos os congadeiros fazem questão de carregar sempre um terço como objeto de
devoção. O terço não é um simples enfeite; é sinal de amor à Mãe de Jesus.
Rezá-lo é muito fácil e qualquer criança pode fazê-lo. Ele é composto pela profissão
de fé (Credo), Pai nosso, ave Maria e Salve Rainha. O Pai Nosso foi ensinado
por Jesus e a Ave Maria foi rezada, primeiramente, pelo Anjo Gabriel. Entre um
mistério e outro se contempla uma das passagens da vida de Jesus em quatro tempos
principais: Infância, vida pública, paixão/morte e ressurreição. São os quatro mistérios:
Gozosos (infância), luminosos (vida pública), dolorosos (morte) e gloriosos
(ressurreição, ascensão ao céu e envio do Espírito Santo. Rezando o rosário
podemos contemplar todos os mistérios da vida de Jesus. Apesar da simplicidade
essa oração é muito rica. Ela nos ajuda a crescer na fé e conhecer melhor a
vida de Jesus.
Foto: Arquivo pessoal



Parabéns muito bonito
ResponderExcluirComo é bom aprender com você! Obrigada por tanto!
ResponderExcluirMuito bonito e muito esclarecedor sobre a devoção a Nossa Senhora do Rosário.
ResponderExcluirObrigada, Padre Geraldo por nos dar uma aula que alimenta nossa fé.
ResponderExcluirNossa Senhora do Rosário nos abençoe e proteja. Amém
ResponderExcluirGostei muito da leitura. E sempre muito bom aprender. Quanto mais conhecimento melhor. Muito obrigado
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