O Purgatório não é um bolo de aniversário
O purgatório, descrito na Divina Comédia, por Dante Alighieri, tem o formato de uma montanha, feito um bolo de aniversário, com nove andar...
O purgatório, descrito na Divina Comédia, por Dante Alighieri,
tem o formato de uma montanha, feito um bolo de aniversário, com nove andares(Cornijas):
O ante Purgatório, os sete andares correspondentes aos sete pecados capitais, e
o paraíso terrestre, situado no topo, onde as almas se purificam para entrarem
definitivamente no céu. O inferno também
tem uma configuração parecida mas, no caso, o “bolo” está de cabeça para baixo.
Entrando no purgatório um anjo marcou sete “pês” na testa de Dante. Cada “P”
correspondia a um pecado capital e, à medida em que ele subia os degraus, os “Pês”
iam sendo apagados. Conforme se sabe, os pecados capitais são sete: Soberba,
Inveja, Ira, Preguiça, Avareza, Gula, Luxúria. Quanto mais alto o degrau da
montanha menos grave era o pecado do qual se deveria purificar. Sendo assim, o
pecado mais grave estava situado no primeiro degrau da montanha. Era o caso da
soberba. Veja abaixo a descrição pela
ordem de gravidade:
1-Soberba: Carregando pedras pesadas, as almas
eram forçadas a olhar para o chão e, assim, aprender a humildade que não
tiveram enquanto vivas:
“E eu disse: O que ora
a nós vem caminhando / Não creio sombras ser: o que é portanto? Não sei, a
percepção turbada estando. Do seu tormento, que te movo espanto / É condição à
terra irem curvados: Também a vista duvidou-me um tanto. Olhos fita; imagina
levantados / Os que vêm dessas pedras oprimidos: Já vês quanto eles são
atormentados. /Cristãos soberbos, míseros, perdidos, Cegos da alma, que haveis
pra trás andado, De tanta confiança possuídos” (1)
2-Inveja: O castigo reservado às almas
invejosas era ter os olhos costurados com arame. Assim não poderia olhar mais,
com inveja, a felicidade alheia:
“Fio de ferro as
pálpebras prendia / A todas, como ao gavião selvage / Para domar-lhe a condição
bravia.” - ___ (Idem. Canto XIII - de 70
a 72)
3-Ira: Por castigo as almas deveriam se
purificar desse pecado, caminhando dentro de uma fumaça densa e escura. Tal
fumaça representava a cegueira que costuma dominar os iracundos.
4-Preguiça: As almas preguiçosas deveriam correr
continuamente para compensar a falta de zelo que tiveram na vida.
5-Avareza e
Prodigalidade: Para
penitenciarem desses pecados as almas deveriam permanecer deitadas de bruços no
chão, amarradas de pés e mãos, olhando para a terra que tanto valorizaram.
6-Gula: Para se penitenciarem da gula as
almas dos gulosos deveriam passar por árvores carregadas de frutos perfumados e
apetitosos sem poder apanhar de nenhum desses frutos para comer.
7-Luxúria: As almas dos luxuriosos deveriam caminham
dentro de chamas para purificar seus desejos intensos.
“E peço-vos pelo alto
valimento, Que da escada a eminência ora vos guia, Que em tempo vos lembreis do
meu tormento. / E, após, ao fogo apurador se envia. ___ ( Ibidem, Canto XXVI).
Só depois de galgar esses sete patamares e ter todos os “Pês”
apagados, na testa, Dante atravessou uma fogueira e conseguiu, finalmente,
chegar ao Paraíso Terrestre. Mas, antes de falar sobre o Paraíso Terrestre,
falemos sobre o ante Purgatório, pois, sobre os sete patamares já falamos
alguma coisa.
A saída do inferno e a passagem para o purgatório não teve ter
sido muito agradável. Dante e Virgílio tiveram que descer pelo lombo do Coisa
Ruim e atravessar uma espécie de túnel para ganhar a planície nas margens do
purgatório:
“Depois de tanto tempo
mergulhado na escuridão, no gelo e no cheiro de morte, finalmente vi uma
abertura circular acima de nós. Saímos do túnel e, ao respirar o ar puro da
madrugada, olhei para cima e senti minha alma renovada. Diante de nós, brilhava
o céu estrelado. Tínhamos atravessado o inferno da alma humana, e finalmente,
voltávamos a ver a estrelas” (2)
Nas margens do Purgatório Dante e Virgílio encontraram-se com
aqueles que se arrependeram, tardiamente, de seus pecados, os negligentes, e
com aqueles que foram excomungados pela Igreja e se arrependeram. Catão, um
pagão que fora senador romano, foi o “guia turístico” de ambos e os preparou
para subirem a montanha do Purgatório. Cingiu-os com um junco liso, planta da
humildade capaz de inclinar-se. No Inferno as almas eram rígidas e orgulhosas,
aqui elas lembram o junco, devem ser flexíveis e humildes prontas para
aceitarem a vontade de Deus. Encontraram ainda, nesse local o “Vale dos
Príncipes” onde permaneciam as almas dos governantes que mesmo zelosos em suas
tarefas de governo descuidaram das questões espirituais.
No Paraíso Terrestre Dante encontrou o Jardim do Éden, onde o
ar era fresco e perfumado. A parte triste desse momento foi a despedida de Virgílio.
Virgílio voltou ao Limbo e entregou Dante em boas mãos. Agora ele poderia
guiar-se a si mesmo. Estava no limiar do céu onde seria guiado por Beatriz o
grande amor platônico de sua vida. Nesse local existem dois rios: O Letes e o Eunoé.
O Letes já era famoso na mitologia grega. Quem passasse por suas águas perdia a
memória da vida passada e estava pronto para um novo nascimento. Para entrar no
Paraíso, Dante deveria esquecer todas as coisas ruins que enfrentou em vida.
Quanto ao Eunoé, rio inventado por Dante, sua função era restaurar a memória
das coisas boas. Assim, antes de adentrar ao Paraiso ele deveria esquecer tudo
de ruim e lembrar-se de todas as coisas boas que fizera...
1- Alighieri, Dante. A Divina Comédia,
Trad: José Pedro Xavier Pinheiro – Dois Irmãos, RS: Clube de Literatura
Clássica. 2020 – O Purgatório - Canto X – 112 a 123)
2-A Divina Comédia (Versão Resumida)
/ Clássicos Resumidos, Dante Alighieri – Brasil, 2026



