Coisas de Deus
Tem muita coisa nesse mundo que a gente não entende. Esse texto não é uma crônica. É o relato de um acontecimento vivido por mim, há muito...
Tem muita coisa nesse mundo que a gente não entende. Esse
texto não é uma crônica. É o relato de um acontecimento vivido por mim, há
muitos anos atrás. Quando se fica mais velho temos uma grande vantagem com
relação aos jovens: Podemos colecionar histórias. A história, nesse caso, foi
vivida por mim mesmo.
Ela era profissional do sexo e todo mundo sabia disso,
naquela cidade, que era do tamanho de um ovo frito. Em vista do seu ofício, era
odiada por uns e amada por outros. As mulheres a odiavam e ao mesmo tempo a
invejavam. Sabiam que a dita cuja exercia enorme fascínio aos homens e a
invejavam por isso. Odiavam-na pela concorrência desleal. Mas, tudo acontecia debaixo de sete chaves e,
embora todos soubessem da fila de seus frequentadores todos se faziam de
cegos. De fato Dona Glória, nome
fictício, tinha seus encantos e era chamada de “Dona” mesmo! As mulheres temiam
que ela conhecesse os seus maridos melhores do que elas mesmas e, por isso,
mesmo odiando a concorrência acabavam respeitando-a. Alguns, dos seus mais íntimos,
chamavam-na, de Glorinha e eram vistos com suspeição pelos demais.
Dona Glória não perdia uma missa ou rezas na Igreja local.
Feito a “Rosa Maria que parecia ter virtude”, descrita no fado português, ela
não perdia as procissões e outros atos devocionais realizados naquela freguesia.
Virtude ela tinha mesmo, pois tinha bom coração e procurava ajudar muitos que
batiam em sua porta suplicando um prato de comida. Naquele tempo, que a Internet
sem sonhava nascer, as intimidades aconteciam em segredo e, embora todos
soubessem, ninguém comentava muito sobre isso.
Certa ocasião, após uma reza de velório, onde Dona Glória
estava presente confidenciou-me um pedido: - Gostaria muito que no meu velório
você viesse para rezar para mim! Aquela conversa me pareceu descabida, pois,
ninguém costuma encomendar orações para o próprio velório. Procurei levar na
brincadeira, mas não me esqueci dessa fala. Além do mais, ela ainda era bastante
jovem e nada indicava morte rápida. Na ocasião, nada fiz de especial, apenas,
rezei, carinhosamente, como costumo fazer nessas situações de dores para os
familiares. Por alguma razão as minhas palavras a comoveu e a levou a fazer tal
pedido.
Muita água passou debaixo da ponte e um dia retornei àquele lugar
para matar a saudade dos amigos. Era uma tarde tristonha com sol escaldante de
arrebentar mamonas no terreiro. De forma inesperada ouvi anunciar o velório de alguém
no alto-falante da Igreja. Advinha quem tinha morrido? A própria! Dona Glória
Meneses de Almeida, sobrenome fictício que acabei de inventar. Naquela hora a
ficha caiu. Como se vê, ainda estou no tempo em que se usava fichas para
telefonar. Naquele instante as palavras de Dona Glória renasceram vivinhas em
minha memória: - Gostaria que você pudesse rezar, um dia, em meu velório... E foi o que fiz, após conversar
com o vigário local.
Naquela tarde quente realizei o desejo da falecida sem que
ninguém soubesse de nada. Só hoje, após muitos anos do ocorrido, torno o fato
público sem revelar o nome da pessoa. Cumpri com o meu dever e o fiz de forma
carinhosa. Diante de mim não havia o corpo de uma profissional do sexo, mas, de
uma filha de Deus, pela qual Jesus também morreu no calvário. Lembrei-me de
Madalena, uma grande pecadora que se tornou a primeira testemunha da ressurreição
de Jesus após ter sido perdoada e amada por ele. O mundo
seria bem melhor se amássemos mais e julgássemos menos. Dona Glória, hoje na
Glória de Deus, sabe que de alguma maneira fui escolhido para rezar no momento
mais decisivo de sua vida, ou seja, seus últimos momentos. De onde se encontra
agora, ela sabe o quanto esse relato é verdadeiro e como, naquele dia, fui
movido por amor.




Padre este relato faz pensar que nada é por acaso. Estar no dia do velório de quem gostaria de tê-lo para a despedida, de quem manifestou este desejo, é de concluir como sendo seu merecimento.
ResponderExcluirA difícil vida fácil, bem nada nada fácil a famosa frase para quem tem o corpo como mercadoria de trabalho. A historia de Jesus com Maria Madalena, e a que seria apedrejada pela lei por traição, reafirma a amorosidade que Ele tem por todos nós. Misericordioso sempre, e nos ensinando a não julgar, mas dar chance, acreditando que enquanto tem vida tem esperança. Glória teve uma vida curta, talvez para seu alívio. Que Deus a receba.
O fado escolhido caiu muito bem, pela sua melancolia.
Nossa esse texto falou tudo. 👏👏👏👏🙌🙌🙌🙏
ResponderExcluirAmei este texto, Dona Glória se encontra com Deus, porque Deus é misericordioso e perdoa a todos , como perdou Maria Madalena.
ResponderExcluirDeus sabe fazer as coisas, no momento que o senhor resolveu ir até aquela cidadezinha foi um chamado, e Deus estava atento a tudo. Nós julgamos as pessoas e Deus cuida das pessoas, ele não deixou que ela ficasse sem a despedida digna, a sua encomendação, que com certeza ninguém chamaria o padre. Este acontecimento nos faz refletir muito sobre o cuidado que Deus tem por nós. Abençoado foi o senhor, Deus o designou para este momento. Amém
ResponderExcluirFato real . Adorei fazer esta leitura!
ResponderExcluirQue segurança a sua religiosidade passou para esta mulher! Não julgou , somente amou como Deus , ama seus filhos.
Coecidência ou não , Deus te colocou no lugar certo e na hora certa para atender o pedido dela ! Que Deus o abençoe ! Você traz dentro de si um enorme coração!👏🏽
Amei! Não devemos julgar ninguém. Temos que nos policiar, sem querer já estamos julgando. Gosto de saber que somos todos filhos de Deus e, foi pra nos salvar que Ele morreu. Ele providenciou para que o Sr. estivesse lá no dia do velório. E ainda tem gente que diz não acreditar em Deus.
ResponderExcluirFato interessante que você com sua diplomacia soube cunduzir de forma caridosa e profissional. Abraços
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