Tragédia de Antígona
Uma das mais belas peças teatrais da Grécia Antiga foi escrita por Sófocles. Trata-se da “Tragédia de Antígona”. Como indica o nome da peç...
Uma das mais belas peças teatrais da Grécia Antiga foi
escrita por Sófocles. Trata-se da “Tragédia de Antígona”. Como indica o nome da
peça, fala de uma tragédia, um enredo sem final feliz. Estamos muito acostumados
aos filmes de Hollywood onde tudo termina de forma açucarada e, por isso, o
estilo trágico não nos agrada muito. Somos tentados a pensar que a vida imita a
arte e que todos teremos finais felizes, um bom sedativo para acalmar as
consciências mais rebeldes. Faz muito tempo usamos esses sedativos vindos do
Tio Sam.
A ação descrita no teatro, acontece na Cidade de Tebas, onde Creonte,
um rei que tem gosto pela tirania, decide punir um dos filhos de Édipo que
havia falecido, negando-lhe o direito à sepultura. O nome dele era Polinices. Polinices
e Etéocles mataram um ao outro na disputa pelo trono do pai. Poliníces foi punido
por ter sido considerado traidor e ter atacado própria cidade com um exército estrangeiro,
enquanto Etéocles foi visto como o defensor heroico de Tebas.
Desobedecendo ao rei, Antígona sepultou o corpo do irmão e
foi severamente punida por isso. Foi condenada à morte mas, antes disso, tirou a
própria vida. Ela era noiva do filho do Rei Creonte. Ao ver a noiva morta
Hêmom, esse era o nome do jovem, também se matou e sua mãe, Eurídice teve o
mesmo fim pois não aguentou ver a morte do filho. O rei terminou sozinho tendo
que conviver com sua própria consciência, um juiz implacável que existe dentro
de cada um de nós...
Vou transcrever um pequeno diálogo das duas irmãs Antígona e
Ismênia, que aparece no início do livro, sobre a polêmica ordem do rei. Ambas
tem opiniões diferentes sobre o assunto:
ANTÍGONA: Ismênia, minha irmã, sangue do meu sangue,
sabes do decreto que Creonte acaba de proclamar? Etéocles recebeu sepultura
honrosa, mas nosso irmão Polinices, morto da mesma forma, não terá o mesmo
direito. Está proibido, sob pena de morte, que alguém o lamente ou o enterre.
Deixá-lo exposto, pasto de aves e cães — essa é a ordem do novo rei! E eu te
pergunto, Ismênia: serás minha aliada nesse ato? Ajudarás tua irmã a dar
sepultura ao nosso irmão, como a lei dos deuses ordena?
ISMÊNIA: Antígona,
estás louca? Desafiar um decreto real? Somos mulheres, não podemos lutar contra
homens armados! Creonte é rei; devemos obedecer. Que poder temos nós para
resistir? Eu me curvo — não quero morrer por ousadia.
ANTÍGONA: E eu, mesmo
que morra, descansarei sabendo que cumpri a lei divina. Prefiro a morte honrada
à vida em vergonha. Enterrarei Polinices com minhas próprias mãos. Vai tu, se
quiseres, obedecer aos homens; eu obedecerei aos deuses eternos! (1)
No debate para resolver o impasse Creonte afirmou que, em
nome da lei (nomos) e da continuidade da polis deveria considerar um como herói
e o outro como usurpador. Antígona, por
sua vez, respondeu-lhe que, em nome da lei (nomos) tinha o dever de sepultar o
irmão. Essa situação nos revela a polissemia das palavras. Ambos invocavam a
lei para fazer justiça. Um invocava a lei humana e a outra parte a lei divina.
Uma palavra pode assumir diversos significados conforme
entendimentos diferentes. Por isso, na comunicação há, sempre, zonas de
obscuridade, mistério e intransitividade. As mesmas palavras podem ter valores semânticos
diferentes em diferentes contextos e o sentido de uma palavra não transita de
forma igual entre um sujeito que fala e o outro que ouve. Sendo assim, alguém
pode dizer cavaleiro e o outro entender cavalheiro.
Para Antígona “nomos” designa o contrário daquilo que Creonte,
nas circunstâncias em que estava colocado, também entendia pelo significado de “nomos”.
Para ela, uma norma religiosa, para ele um decreto do chefe do estado. Quem irá
os ajudar a sair desse empasse será Tirésias. Tirésias era um cego idoso e sábio.
Mas, nem a ele o rei quis ouvir. Vejamos parte dessa conversa:
TIRÉSIAS: Creonte,
governar é difícil, e o sábio aprende a ceder quando os deuses assim ordenam.
Trago-te sinais: as aves, inquietas, brigam e se devoram; o fogo do altar não
arde, a chama se apaga em sangue e gordura impura. Tudo indica que os deuses
rejeitam nossos sacrifícios, pois a cidade está manchada pela tua decisão.
Tebas não encontrará paz enquanto o corpo de Polinices não for enterrado, e
enquanto a virgem Antígona, condenada injustamente, não for libertada. Cede,
Creonte, antes que seja tarde!
CREONTE: Velho
insolente! Todos conspiram contra mim — até tu, Tirésias? É por ouro que
profetizas! Não me dobrarão tuas palavras!
TIRÉSIAS: Cuidado,
Creonte. Não há ouro que me compre, mas há orgulho que cega os reis. Escuta
bem: antes que o sol de hoje se ponha, pagarás vida por vida, carne por carne.
Teu próprio sangue cairá em expiação. Já ouço o lamento que encherá tua casa.
CREONTE: Ai de mim! Que
devo fazer? O que o destino exige?
TIRÉSIAS: Liberta a
jovem de seu túmulo, dá sepultura ao morto. Não desafies mais os deuses. Assim,
talvez, evites a ruína total...
De nada adiantou as súplicas de Antígona e as advertências do
velho Tirésias. Creonte agiu como costuma agir todos os tiranos. Para esse tipo
de gente, não existe o contraditório e só eles tem razão. Conhece alguns
governantes assim? Seria bom que lessem o livro do poeta Sófocles. Talvez, isso
poderia evitar-lhes a própria ruína.
1- Livro: Trilogia Tebana, de Sófocles – Páginas 46 a 67 - Consulta em arquivo digital
Imagem de MythologyArt por Pixabay




Como o conhecimento é importante! Como a história pode ensinar! Como podemos escolher os tiranos?! A ignorância explica.
ResponderExcluirInfelizmente a ignorância é muito grande
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