A punição dos deuses
Uma das guerras mais emblemáticas da história, certamente, foi a Guerra de Tróia. Ela envolveu deuses e homens num conflito que durou mais...
Uma das guerras mais emblemáticas da história, certamente,
foi a Guerra de Tróia. Ela envolveu deuses e homens num conflito que durou mais
de dez anos. Tudo teria começado por causa de um capricho feminino. Atena, Hera
e Afrodite disputavam um “concurso de beleza” onde cada uma queria ser a
vencedora e, para isso, não economizaram esforços nem tentativas de suborno ao juiz
da questão. Páris, príncipe troiano, foi o Juiz que se vendeu à melhor proposta
recebida, concedendo a vitória a Afrodite, cujo nome latino é Vênus, a deusa do
amor. O prêmio que ele ganhou por ter emitido tal sentença, foi a mão de Helena,
a mulher mais linda da região. Após o julgamento raptou Helena que já era casada
com Menelau e fugiu com ela para Tróia, sua terra natal. Esse foi o estopim da
guerra pois, as perdedoras não se conformaram com isso e juraram vingança aos
Troianos. A guerra dividiu os homens e os deuses.
Após uma década de resistência Tróia foi vencida pela astúcia
dos gregos. Aqui entraria a história do famoso “Cavalo de Tróia” idealizado por
Odisseu. Mas, sobre isso, falaremos em outra ocasião. Após adentrar à cidade
fortificada, os gregos cometeram diversos abusos que chegaram a escandalizar os
próprios deuses e deusas do Olimpo. Ajáx, por exemplo, arrastou Cassandra pelos
cabelos e, segundo alguns, a estuprou no templo de Atena após derrubar a imagem da deusa. Cassandra era uma
profetiza, filha de Príamo, o Rei de Tróia. Quem escreveu sobre isso, bem mais
tarde, foi Virgílio (Eneida - Livro II, versos 403 – 404):
“Ah, mas a ninguém é legitimo fiar-se em deuses adversos! Eis
que a jovem filha de Príamo, Cassandra, de cabelos esparsos, era arrancada ao templo
e ao santuário de Minerva(Atena), os olhos em lume voltados em vão para o céu,
os olhos, pois as mãos delicadas, cadeias as acorrentavam...” - A questão do abuso sexual foi narrada
pelo poeta grego, Licofrão de Cálcis (330–325 a.C.).
Outro comportamento condenável dos vencedores foi não ter
agradecido aos deuses pela vitória. Esqueceram-se de oferecer o “hecatombe”, ou
seja, o sacrifício de cem bois, conforme descrito na Odisseia (Odisseia – Canto
IV, 351 ss):
“Junto ao Egito detinham-me os deuses, conquanto impaciente,
por não lhes ter ofertado hecatombe com todos os ritos, pois querem sempre
lembrados dos homens os divos preceitos.”
Mas, a crueldade dos soldados gregos não parou por aí. Um
deles, Neoptólemo, filho de Aquiles, também conhecido por Pirro, matou de forma
cruel o filho de Heitor, Príncipe Troiano e neto do Rei Príamo, atirando o bebê
do alto das muralhas sob o olhar desesperado de Andrômaca, sua mãe:
“Andrômaca e o pequeno Astiânax, filho dela e de Heitor,
aparecem num carro conduzido por soldados gregos, e por Andrômaca Hécuba fica
sabendo da morte de Polixena, imolada sobre o túmulo de Aquiles. Embora
desesperada, Hécuba exorta a nora a ser agradável a seu novo senhor, pois assim
talvez Astiânax pudesse chegar à idade adulta e reviver a antiga grandeza de
Tróia. Pouco tempo depois Taltíbio, o arauto, reaparece com a mensagem
terrível: os gregos tinham decidido, a conselho de Odisseu, que Astiânax fosse
lançado do alto das muralhas ao chão, pois, se permanecesse vivo, seria uma
ameaça para a Grécia. Andrômaca despede-se do filho numa cena extremamente
tocante”.(As Troianas, de Eurípedes, Introdução).
Conforme se pode ver, o comportamento dos soldados gregos com relação aos vencidos foi escandaloso: Chacina geral, incêndio desnecessário, profanação aos templos e violência desmedida. Os soldados mataram grande parte dos homens e crianças que encontraram pelas ruas. Tal comportamento despertou a fúria dos deuses e por isso, quase todos tiveram dificuldades ao voltarem para suas casas. Na viagem tiveram que enfrentar ventanias, tempestades e naufrágios. Odisseu, por exemplo, gastou dez anos para retornar à sua casa e na viagem perdeu tudo o que tinha, inclusive seus companheiros.
Esse relato sobre a guerra descrito na Ilíada, Odisseia e
outros textos antigos servem para nos ensinar que, até mesmo na guerra, é
preciso que haja uma ética, um mínimo de respeito aos adversários. Já se
passaram mais de três mil anos que tudo isso aconteceu. Será que a humanidade
aprendeu alguma coisa sobre o tema? A guerra é sempre uma imbecilidade humana,
mas uma guerra sem o mínimo de ética é a imbecilidade potencializada. Pense
nisso!
Imagem: Criada por IA (Gemini)



