Uma deusa com sandálias de ouro andando sobre as águas

  Meu comentário de hoje será sobre o primeiro canto, dos 24, que compõem da Odisseia, de Homero. Não devemos considerar como partes essas s...

 

Meu comentário de hoje será sobre o primeiro canto, dos 24, que compõem da Odisseia, de Homero. Não devemos considerar como partes essas sequências, pois, empobreceria a ideia do poeta. Trata-se, de verdadeiros cantos permitidos pelas musas (deusas da música, do canto e da dança), filhas de outra deusa, a memória... Por isso, o poeta (aedo) recita uma “oração”, invocando a proteção divina antes de recitar o poema épico. A memória do poeta é reduzida para lembrar os grandes feitos do passado. Isso só era possível com a mediação das musas à deusa da memória. Lembre-se de que, naquele tempo, os poemas eram recitados, oralmente, por mais longos que fossem. Estamos numa época anterior à escrita. Vejamos a “prece”:

“Musa, reconta-me os feitos do herói astucioso (Odisseu) que muito peregrinou, dês que esfez as muralhas sagradas de Tróia; muitas cidades dos homens viajou, conheceu seus costumes, como no mar padeceu sofrimento inúmeros na alma, para que a vida salvasse e de seus companheiros a volta(...) Deusa nascida de Zeus, de algum ponto nos conta o que queiras...” (1)

Após a invocação às musas o poeta começa o canto descrevendo como Atena, intercede a Zeus para salvar Odisseu, preso na Ilha Ogígia “enfeitiçado” por Calipso (de tranças bem feitas) que se apaixonara, pelo herói:

“Crônida (Zeus, filho de cronos), pai de nós todos, senhor poderoso e supremo! Pois se assim é e do agrado dos deuses bem-aventurados que a seu palácio retorne Odisseu, o de grande inventiva, Hermes, então, sem demora enviemos, o guia brilhante, à ilha de Ogígia, porque, sem mais perda de de tempo, anuncie à veneranda Calipso de tranças bem feitas, a nossa resolução de mandar o prudente Odisseu para a pátria” (Canto I,80).

Atena participou de uma assembleia dos deuses e fez esse pedido a Zeus, alegando que a casa de Odisseu estava sendo invadida pelos pretendentes de sua esposa e que essa falta de respeito pela xênia (hospitalidade) não deveria ser tolerada pelos deuses. Além disso, Calipso também estava “pecando” contra a xênia por manter prisioneiro, em sua ilha, um herói de tão grande porte. Zeus, o chefe dos deuses, concordou com Atena, apenas, ponderou que Posseidon ( o deus do mar) não queria matar Odisseu mas, castigá-lo, mantendo-o longe de casa, por ele ter vazado os olhos de seu filho o gigante Polifemo.

Enquanto Zeus enviava Hermes (o porta-voz do olimpo) à ilha de Calipso, Atena calçada com suas sandálias de ouro caminhou sobre as águas em direção à Itaca, a ilha de Odisseu, para orientar o seu filho Telêmaco sobre como deveria proceder até o retorno do pai: “Quero manda-lo até Esparta, e até Pilo de solo arenoso, para da volta do pai alcançar fidedignas notícias, como, também, conquistar entre os homens um nome preclaro” (Canto I, 93).

Porque os deuses concordaram com o retorno de Odisseu à sua casa após vinte anos ausente? Por vários motivos:

A, Telêmaco o seu filho agora adulto corria riscos de morrer pelas mãos de algum pretendente de sua mãe, a suposta viúva Penélope;

B, Para proteger o seu reino dos invasores que não respeitavam a xênia e o dever sagrado de hospitalidade. Para exercer a correta punição(tisis) e restabelecer a boa ordem (eunomia) violada no que diz respeito à hospitalidade (xênia);

C, Porque Penélope já não tinha mais como adiar a decisão de casar-se novamente;

D, Porque os bens que deveriam pertencer a Telêmaco, estavam sendo dilapidados pelos invasores;

E, Para que Telêmaco tivesse um nome sobre o qual orgulhar-se como seu pai Odisseu.

Por todos esses motivos, com exceção de Posseidon, que ainda jurava vingança contra Odisseu, os deuses  permitiram o seu retorno(nóstos) para casa.

Qual o erro Odisseu cometeu para ser punido dessa forma pelos deuses? Ele era inteligente e astucioso, mas, ao mesmo tempo curioso, vaidoso e arrogante. Por isso, após a Guerra de Tróia, passou vinte anos fora de seu lar, enfrentando a fúria dos deuses. Na viagem de retorno perdeu tudo, inclusive os seus guerreiros e só conseguiu voltar para casa com ajuda dos Feácios. Tudo isso para aprender que ele não passava de um homem. Era apenas isso, e tudo isso!

 

1-         Proêmio do Canto I, 1 – 10 – Homero, Odisseia: tradução de Carlos Alberto Nunes. Rio de Janeiro,      Ediouro, 2002.

Im     Imagem: Gerada por IA. 

       

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