Baquaqua: Um intelectual escravizado no Brasil
Devemos admitir que sabemos muito pouco sobre o período da escravidão negra no Brasil. De maneira geral, a gente esconde aquilo que...

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Devemos admitir que sabemos muito pouco sobre o
período da escravidão negra no Brasil. De maneira geral, a gente esconde aquilo
que nos envergonha. Mas, a grande maioria nem sente vergonha pois não teve acesso às informações
sobre o assunto. O que aprendemos na escola, sobre esse tema, é algo
irrelevante. Gastamos boa parte de nosso tempo no ensino fundamental e médio a
estudar a história da Europa como a Revolução Francesa, Industrial... Quase nada
aprendemos sobre a África, ou mesmo os países que são os nossos vizinhos na
América Latina. Isso não é feito sem propósito. Há um esquecimento proposital.
Ilustra isso, a atitude nada republicana, de Rui Barbosa, que mandou queimar os
arquivos da escravidão, para que o estado não tivesse que pagar indenizações
aos antigos donos de escravos (1).
Passamos boa parte do tempo
escolar a cultuar falsos heróis enquanto a verdade é ignorada mos nossos programas de ensino. Pergunte a
qualquer aluno, em véspera de vestibular, o que ele sabe sobre a África? Um
aluno, já universitário, me confessou, certa vez, não saber que o Egito ficava
na África... Isso acontece, também, com relação aos países que são nossos
vizinhos. Mas, existe algo que é ainda pior do que o desconhecimento: O
preconceito! Em se tratando de África ele
é bastante evidente. Herdamos expressões que condenam o nosso racismo. Ex:
Passado negro, cambio negro, cabelo ruim, denegrir, magia negra... Essas
expressões, aparentemente, inocentes escondem um racismo enraizado em nossa
cultura brasileira.
Temos uma visão um tanto quanto estereotipada
da África. Na maioria das vezes, falamos de África como se tratasse apenas de
um país com uma realidade uniforme, quando, na verdade, trata-se de um enorme
continente com, nada menos, do que 54 países e múltiplos povos, línguas e culturas!
Sobre os africanos escravizados também
sabemos pouco. Podemos imaginar que todos os escravos que desembarcaram, por
aqui, eram incultos e embrutecidos. Não imaginamos que vieram para cá, na
condição de escravizados muitos reis, príncipes, rainhas artesãos, e homens
cultos. Em seu livro, “Um Rio chamado Atlântico”, Alberto da Costa e Silva
relata a história de toda uma família real que chegou por aqui na condição de
escravizados (2).
Nesse texto, gostaria de falar de
um intelectual que foi escravizado no Brasil e deixou, por escrito, tudo o que
passou nessa experiência dolorosa. Trata-se de Mahommah Gardo Baquaqua. Baquaqua
falava sua língua nativa. Mas, aprendeu também: Árabe, Português,
Inglês, Francês, Creole... Por tudo isso, eu o considero um intelectual. Ele
nasceu em meados de 1820, de uma família muçulmana no Reino de Bergoo ( atual
Borggo, no atual Benin). Em seu livro autobiográfico escrito no Canadá entre
1824 a 1857, deixou-nos um precioso relato sobre tudo o que viu e viveu. O
Livro tem sete capítulos. Nos primeiros capítulos ele fala de sua terra com
ternura e saudade. Nos capítulos seguintes fala sobre sua família, condições de
trabalho, hábitos e costumes do lugar em que nasceu. No capítulo sete, fala de
sua captura, transporte até o litoral e embarque para o Brasil. As condições do
navio negreiro mereceu um longo comentário no qual ele afirma que só o inferno
pode ser usado para comparar com essa embarcação. Narra a experiência cruel
quando, ainda na África, foi marcado com ferro em brasa e de muitas outras
crueldades.
Baquaqua foi traficado para o
Brasil na década de 1840. Saiu do atual Benin, chegou em Pernambuco, seguindo
para o Rio de Janeiro e outros estados do sul. Depois foi para Nova York, para
o Haiti, voltou para os Estados Unidos, seguiu para o Canadá e depois Londres
por volta de 1857. Em cada lugar por onde passou relata experiências de dor e
sofrimento vividos por qualquer escravo. Pensou em morrer, muitas vezes e,
chegou a tentar suicídio em Pernambuco. Por causa disso, apanhou mais ainda. Em Pernambuco foi vendido para um dono de
navio e seguiu com ele para o Rio de Janeiro. Mas, a mulher desse capitão não
gostava dele e lhe batia sem qualquer motivo. Depois de um tempo seguiu para
Nova York num cargueiro de café. Lá acabou sendo libertado pelos
abolicionistas, embora não soubesse quase nada sobre eles. De lá fugiu para o
Haiti onde “comeu o pão que o diabo amassou”. Sua salvação foi ter conhecido um
casal de Evangélicos “Batista”. Depois de conviver com esse casal retornou aos
Estados Unidos e entrou na faculdade onde era alvo de constantes chacotas e
agressões. Em seguida viajou para o Canadá. Lá trabalhou com o editor de livros
Samuel Moore. Com ajuda dele conseguiu publicar sua biografia chamada: Biografia
de Mahommah G. Baquaqua, um nativo de Zoogoo, no interior da África.
Não sabemos ao certo como
Baquaqua morreu. A última noticia sobre ele data do ano de 1857, em Londres.
Seu grande sonho de retornar à sua terra natal, provavelmente, não se
concretizou. Baquaqua morreu, certamente, na Inglaterra. Mas, graças a ele
temos um precioso relato dos tempos da escravidão visto pelo olhar de um
escravo. Isso faz muita diferença, pois como afirma um ditado africano: Até que
o leão aprenda a escrever a história exaltará sempre a versão do caçador...
2- Trata-se da família de Nâ Agontimé, a mãe de
Guezo, rei do Daomé, que foi vendida como escrava juntamente com toda sua
família pelo rei adversário Adandozan. Ela só foi localizada por Pierre Verger
no séc XX. Pelo visto ela foi a fundadora da Casa das
Minas, em São Luís do Maranhão. (Silva, Alberto da Costa. Um Rio chamado Atlântico:
A África no Brasil e o Brasil na África. RJ, Nova Fronteira,2003 – PP 161).
3-
Baquaqua,
Mahommah Gardo. 1824? 1857? – Biografia de Mahommah Gardo Baquaqua: um
nativo de Zoogoo, no interior da África. SP, Uirapuru, 2017.
Imagem de PublicDomainPictures por Pixabay
Conhecer o outro lado da moeda é fundamental, evitaria sonhos destruídos, realidades assassinadas,verdades ocultas e vidas que perdem o sentido. O outro lado da moeda, é na maioria das vezes a verdade vitimizada, por mentiras mascaradas e enganosas a tal ponto de serem valorizadas e aceitas.
ResponderExcluirA verdade sempre aparece, não importa quando.Triste história, triste realidade,triste fim,mas alegre verdade que não ficou escondida e nos mostra a maldade dos seres humanos.
ResponderExcluirA cada dia me encanto mais com seus textos
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